PERGUNTE E RESPONDEREMOS 020 – agosto 1959
Paulo de São Paulo: “O que é a verdade? Podem as faculdades humanas chegar a apreendê-la?
E qual seria o critério seguro para se discernir do erro a verdade?”
A resposta a estas questões requer, antes do mais, breve observação: ao falarmos da verdade e da possibilidade de a ela chegarmos, tocamos noções fundamentais, pressupostas por qualquer raciocínio. A possibilidade de apreender a verdade é implicitamente admitida por todo homem que indague; caso não a admitisse, este não se daria ao estudo, nem mesmo com o fito negativo de destruir as teses que afirmam o valor da mente humana.
Por isto a nossa tarefa, ao abordarmos as questões acima, será principalmente a de explicitar e analisar noções implicadas pelos conceitos de verdade e de apreensão da verdade. Não se pode propriamente demonstrar a aptidão da inteligência para conhecer a verdade, pois demonstrar significa partir de conhecimentos tidos como certos para chegar a novos conhecimentos, ignorados pelo estudioso; o fato, porém, de que este considere alguns conhecimentos como certos, supõe admita que a inteligência seja apta para os possuir.
Donde se vê que a demonstração da aptidão da inteligência para apreender a verdade já suporia esta aptidão; suporia justamente o que deveria provar. Não é, pois, possível. — Nem e necessária tal demonstração, pois a aptidão da inteligência constitui algo que, implicitamente ao menos, apreendemos com segurança, como condição básica do conhecimento, todas as vezes que conhecemos alguma coisa.
Em nossa resposta, consideraremos em primeiro lugar o que é a verdade, para procurarmos, a seguir, qual seja o critério da verdade.
1. Que é a verdade?
1. Os filósofos ensinam que a verdade é a conformidade ou adequação entre dois termos: a inteligência e a realidade. Esta conformidade pode ser considerada sob dois aspectos:
1.a) Leve-se em conta a conformidade de um ser (ou de um objeto) com a inteligência que o concebeu. Tem-se então o que se chama a verdade ontológica ou a verdade do ser. Tal ser é dito verdadeiro, porque é conforme ao exemplar que tal inteligência concebeu a seu respeito.
Ora todo ser é verdadeiro ao menos em comparação com a Inteligência Divina. Esta, de fato, concebeu todos os seres e, concebendo-os, deu-lhes existência em plena conformidade com o arquétipo concebido por Deus; tudo que agora existe, é um reflexo pequeno da infinita sabedoria divina. Não há ser existente que não corresponda ao exemplar traçado pelo Criador; donde se vê que não há ser que não possua sua verdade ontológica.
Dir-se-á, contudo: existem também falsidade e erro no universo! — Sim; pondere-se, porém, que o erro e a falsidade não são entidades positivas, mas carências de entidade (assim como o mal não é entidade, mas carência de entidade; cf. «P. R.» 5/1957, qu. 1); tudo que há de entidade numa coisa falsa, é conforme ao seu exemplar divino e, por conseguinte, verdadeiro; a falsidade só consiste numa lacuna que sobrevém a esse ser verdadeiro. Assim num homem que é falso amigo, tudo que há de positivo e real (a natureza humana, a inteligência, a capacidade de amar) é conforme ao modelo concebido pelo Criador, isto é, possui verdade ontológica (tal entidade coisa boa — existe como Deus a concebeu); acontece, porém, que essa pessoa, ao amar, ama sem se conformar ao exemplar ou ao ideal da amizade traçada por Deus; essa falta de conformidade, que não é entidade, é justamente o que faz de tal pessoa um falso amigo.
1.b) A conformidade entre inteligência e objeto pode ser considerada não do lado do objeto, mas do lado da inteligência. Tem-se então a verdade lógica., isto é, a adequação da inteligência ao objeto, a uma realidade que ela não faz e que existe independentemente dela. É esta a verdade do conhecimento, em torno da qual se põem geralmente os problemas de criteriologia.
Como se vê, a definição de verdade inclui a noção de um objeto existente fora do indivíduo e apreendido pela inteligência tal como ele é (de modo a se ter. adequação ou conformidade).
2. Eis, porém, que surge a dúvida: poderíamos supor que de fato apreendemos os objetos existentes fora de nós tais como eles são e não apreendemos apenas uma simples aparência desses objetos? Quem nos garante que o nosso pretenso conhecimento do mundo externo não passa de mera ilusão subjetiva?
Tal dúvida se resolve pelo recurso à experiência, assim como pela verificação das absurdas consequências que o relativismo e o ceticismo acarretam. É o que nos propomos desenvolver sob três aspectos:
2.a) A experiência atesta que afirmamos de maneira espontânea e constante a existência do nosso corpo e de outros corpos (ou do mundo sensível exterior a nós).
Na percepção dos objetos sensíveis, temos consciência de que somos passivos ou de que os nossos sentidos estão sendo excitados por um estímulo exterior: num simples aperto de mão sentimos em nós a ação de um ser distinto que atingimos. Também os nossos conceitos intelectuais nos atestam a apreensão de seres existentes fora de nós, pois estão sempre relacionados com atos dos sentidos, que dependem de objetos exteriores a nós; basta lembrar que quem sempre careceu do sentido da vista, é incapaz de conceber a ideia de cor.
A afirmação de que existem tais e tais corpos fora de nós impõe-se com necessidade inelutável. Os que negam a capacidade de apreendermos o mundo sensível, só a negam teoricamente; na prática procedem como se estivessem seguros de lidar com tais e tais corpos bem distintos uns dos outros (alimentos, vestes, caneta, lápis, etc.).
Pois bem. A afirmação que espontaneamente fazemos da existência de objetos fora de nós, não pode corresponder a uma ilusão. Tratar-se-ia de ilusão básica e universal (extensiva a todos os homens). Ora tal ilusão é impossível, pois implicaria fragorosa contradição: com efeito, para reconhecer uma ilusão como ilusão, é preciso já tenhamos tido o conhecimento verdadeiro do objeto acerca do qual nos dizemos iludidos; é somente pela comparação da afirmação presente com o conhecimento que outrora tínhamos a respeito do mesmo objeto, que podemos concluir estarmos atualmente em ilusão. Portanto afirmar uma ilusão básica ou inicial é absurdo, porque toda afirmação de ilusão por parte de um sujeito supõe que o mesmo sujeito tenha previamente conhecido a realidade autêntica (somente quem já viu pérolas verdadeiras se acha em condições de afirmar estar agora vendo aparências de pérolas ou pérolas falsas).
Donde se percebe que não poderíamos asseverar que nos iludimos quando julgamos apreender objetos exteriores a nós. se não tivéssemos alguma vez atingido realmente objetos exteriores; um homem detido num recinto cujos limites ele nunca tivesse visto, não teria consciência de estar detido ou preso; para o poder assegurar, ele deveria chegar até a cerca ou as grades do recinto e considerar a área exterior. Assim o indivíduo humano, se estivesse encerrado em sua consciência sem jamais atingir objetos externos, não poderia ter o conceito de realidade exterior, nem fazer distinção entre o interior e o exterior, entre os conceitos meramente subjetivos e os realmente objetivos, distinção que de fato a nossa consciência faz.
Conclui-se, pois, que ter a experiência cotidiana na qualidade de ilusão é absurdo insustentável. Toda modalidade de idealismo (sistema segundo o qual só conhecemos produções da nossa mente, nada, porém, de objetivo) há de ceder ao realismo natural. Quem se quer furtar aos dados realistas que o bom senso lhe fornece, cai em absurdo tal que só lhe resta voltar à posição natural, isto é, reconhecer o valor objetivo das nossas percepções.
2. b) O simples fato de duvidarmos da veracidade de nossos conhecimentos supõe a posse certa de algumas noções; supõe portanto a veracidade mesma de nosso conhecimento. Com efeito, quem duvida, afirma a sua própria existência («sou um sujeito que duvida») ; quem duvida, sabe o que ó dúvida, sabe o que é certeza e distingue esta daquela (distingue o ser do não-ser) ; quem duvida, tem certeza de que são insuficientes os motivos para afirmar tal coisa em vez de tal outra, etc. Donde se vê que toda dúvida se baseia sobre a prévia certeza de alguns dados; por conseguinte, a dúvida universal (ou dúvida a respeito de tudo), como atitude prática, é fisicamente impossível.
2.c) Considerado agora como doutrina, o ceticismo se mostra contraditório. Efetivamente, o ceticismo afirma que de tudo devemos duvidar por sermos incapazes de atingir a verdade com certeza.
Ora esta tese é proposta pelo cético:
a) ou como algo de certo; equivale então a dizer: «É certo que nada há de certo». No caso, o cético sabe algo de certo (=sua própria tese) ; por conseguinte, já não pode duvidar de tudo. E, caso queira provar «ser certo que nada há de certo», o cético cai em mais flagrante contradição, pois toda prova supõe premissas certas e o valor do raciocínio.
b) .. .ou como algo de provável; equivale então a dizer: «É provável que nada há de certo». Neste caso também, o cético sabe algo com certeza, isto é, a probabilidade do seu sistema, pois ele não poderia dizer que sua tese é provável, se não possuísse com certeza alguma razão provável que fundasse a dita probabilidade;
c) .. .ou como algo de que o cético mesmo não tem certeza. E não tem certeza ou porque os motivos pró e contra o ceticismo lhe parecem equivalentes. A pessoa no caso supõe a certeza da discriminação desses motivos, supõe a certeza de um critério para distinguir o certo do incerto e para avaliar a igualdade dos motivos... Consequentemente, tal cético possui suas certezas e se contradiz;
... ou porque não vê motivo nem pró nem contra o ceticismo. Nesta hipótese, a pessoa não propõe o ceticismo como doutrina, pois toda doutrina se funda em razões, certas ou prováveis. Contudo mesmo esta posição extremamente reservada implica contradição, pois supõe a certeza de que não é a mesma coisa possuir e não possuir motivos (princípio de contradição: «o ser não é o não ser»); supõe também a certeza de que nada se deve afirmar sem razão segura.
«De resto, todos estes recursos do cético provam que ele procura fugir das contradições (e isso demonstra que ele admite como certo o princípio de contradição), mas sem o conseguir: só foge de umas para incorrer noutras. Leva sempre consigo a contradição essencial desta doutrina: também o conhecimento provável é um conhecimento, é saber que a mente não alcançou ainda a certeza para a qual é feita e tende; isso pressupõe o conhecimento da aptidão da mente para conhecer a realidade: saber que não sabe é um saber, pois é a afirmação da existência real de um determinado estado da mente; donde o ceticismo é sempre a negação de toda a certeza junta com a aceitação de algumas certezas.
Logo, sob qualquer forma que seja proposto, o ceticismo inclui sempre algumas certezas, inclui sempre o Dogmatismo, e por conseguinte não pode afirmar-se sem 'ipso facto' negar-se. — É esta a refutação eficaz do ceticismo, por redarguição, já usada por Aristóteles (Metafísica 4, 3 e 4), pela qual se torna evidente que o cético não pode afirmar sua suposição sem ter que admitir o que ele nega» (P. Cerruti, A caminho da Verdade Suprema. Rio de Janeiro 1954, 48s).
Uma vez comprovado o absurdo de qualquer posição que duvide da nossa capacidade intelectiva de apreender a verdade, surge a questão: qual será então o critério (isto é, o sinal necessário e suficiente) que nos leva a discernir com segurança a verdade e a falsidade?
2. O critério distintivo da verdade:
A Filosofia perene responde que o sinal último, necessário e suficiente, para que se possa distinguir do erro a verdade, é a evidência intrínseca dos objetos do conhecimento. E que se entende por «evidência intrínseca...» ?
«Evidência» é termo derivado do setor da visão sensitiva (ocular) e transferido para o plano do conhecimento intelectivo.
Os filósofos, em geral, ensinam que a evidência não pode ser propriamente definida, porque ela é o que há de mais simples e claro; é como a luz, que se manifesta a si mesma e manifesta outras coisas, mas por nada pode ser manifestada.
Explicitando, porém, a noção de evidência, diz-se que é a propriedade pela qual o objeto se torna manifesto ou se faz ver à inteligência de tal modo que esta não possa deixar de afirmar tal objeto.
Distinguem-se duas modalidades de evidência:
2.a) a evidência intrínseca: é aquela pela qual o objeto se patenteia por si mesmo e em si mesmo; o objeto projeta a sua própria luz e refulge à mente de quem o considera; possuem, por exemplo, evidência intrínseca as proposições «o todo é maior que uma de suas partes», «dois e dois são quatro»;
2.b) a evidência extrínseca: é a que se obtém quando o objeto, permanecendo inevidente em si mesmo, merece não obstante ser afirmado, em virtude da evidência que temos da autoridade de uma testemunha que vê tal objeto e o apresenta à nossa inteligência. A evidência extrínseca é a que toca, por exemplo, às verdades da história: não nos é possível contemplar diretamente os fatos que as crônicas antigas nos narram; estes acontecimentos por si não se manifestam ao estudioso; não obstante, o historiador os afirma com segurança mediante a evidência de documentos cuja autoridade ou veracidade ele pode controlar.
Pois bem; estes dados já nos possibilitam entender a proposição enunciada acima: o critério ou o sinal seguro da verdade é a evidência intrínseca do objeto do conhecimento.
Tal asserção poderá ser ilustrada mediante o seguinte raciocínio: a evidência intrínseca supõe que o objeto seja adequadamente proposto à inteligência; ora, se esta em tal caso, não prorrompesse em uma afirmação, já não seria potência ou faculdade de conhecer, mas impotência (o que é contradição), como os olhos que, diante do objeto colorido adequadamente proposto, não vissem, não seriam potência visiva. É necessária a luz para conhecermos e distinguirmos cores; quando, porém, estas aparecem e há olhos capazes de ver, a visão se processa de modo infalível; o mesmo se dá no plano da evidência intelectual.
De resto, todos os filósofos, qualquer que seja o seu sistema, admitem, explícita ou implicitamente, a evidência como critério supremo da verdade; mesmo o idealista, que afirma: «Conhecer é criar imagens subjetivas e ilusórias», ensina esta tese, porque pretende ver que a realidade é essa; se dissesse: «Professo que conhecer é criar, não porque o veja, mas porque me agrada afirmar isto», a sua tese perderia todo valor em si e todo motivo para se impor a outros. Portanto mesmo quem critica o conceito tradicional de verdade, não pode ser tomado a sério, se não diga que vê e se não procure fazer ver que as coisas existem de modo diferente do que se pensa.
Destas considerações se deduz que o erro intelectual só se pode dar onde não haja evidência do objeto. Sim, o erro intelectual consiste em se afirmar o que não é; ora o não-ser, não tendo entidade, não pode ser evidente ou não pode agir sobre a inteligência e necessitá-la a dar sua adesão. Por conseguinte, todo erro é dependente da vontade; deve-se, em última análise, à influência da vontade, que move a inteligência a afirmar algo que ela não vê com evidência. O erro intelectual jamais é algo em que o homem normal deva necessàriamente incorrer.
Para tomar plena consciência disto, comparemos entre si as duas séries de proposições:
1) «O todo é maior do que uma das suas partes».
«A soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois ângulos retos».
2) «O número de estrelas é par».
«O homem é um quadrúpede».
As duas primeiras afirmações (desde que sejam devidamente analisados os conceitos que elas implicam) se impõem ao intelecto, exigindo o assentimento deste, independentemente de um ato prévio da vontade (ou independentemente de querermos ou não querermos...).
As duas últimas sentenças, ao contrário, não trazem em si mesmas sua luz; por isto não forçam a inteligência a dizer Sim; esta só lhes dará assentimento após um ato de vontade, ou seja, caso o indivíduo resolva (por um motivo qualquer que não seja a evidência do objeto) afirmar que o número de estrelas é par...
Entre as causas que movem a vontade ao erro (causas do influxo da vontade sobre a inteligência para que esta afirme o que não é), têm grande peso as causas morais: precipitação afoita (a pessoa não tem paciência para analisar o que diz), vaidade (o sujeito não tem conhecimento do assunto; não obstante, quer dizer alguma coisa sobre o tema, para não revelar sua ignorância), preguiça de averiguar o sentido dos termos ou das premissas de um raciocínio, paixões desregradas, que levam a tomar posições doutrinárias convenientes a quem vive no vício moral. Observava Leibniz : «Se a geometria contrariasse as nossas paixões e os nossos interesses momentâneos, tanto quanto a Moral, nós a contestaríamos e a violaríamos não menos do que a Moral, apesar de todas as demonstrações de Euclides e Arquimedes; trataríamos a estas como a sonhos cheios de contradições. José Scaliger, Hobbes e outros, que escreveram contra Euclides e Arquimedes, não encontrariam tão pouco eco quanto encontram» (Nouveaux essais sur L'entendement humain, citado por J. Bouché, em «Dictionnaire de Théologie catholique» V 2, 1726).
Como se vê, a filosofia perene é francamente otimista na solução da questão criteriológica: afirma que o homem foi feito para apreender a verdade e que só incorre no erro caso não faça uso devido da sua inteligência (note-se bem que ignorância não é erro: quem ignora um assunto, nada afirma sobre o mesmo; quem erra, afirma algo em desacordo com a realidade).
Para se evitar o erro, observem-se as duas seguintes normas:
a) proceda a pessoa prudentemente ao analisar os seus conceitos (averiguando o que cada um deles abrange e não abrange); proceda prudentemente ao comparar o sujeito e o predicado, antes de formular um juízo; proceda prudentemente ao deduzir o nexo entre as premissas e a conclusão nos raciocínios;
b) abstenha-se o indivíduo de dar adesão firme antes de ter verificado que possui a evidência objetiva, e não apenas uma aparência subjetiva de evidência.
Na elaboração desta resposta, muito nos valemos da obra de P. Cerruti, A caminho da Verdade Suprema, 2ª ed. 1956.
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)
Neste blog você encontra uma compilação de artigos que muito contribuiram para o meu conhecimento. OBS: Estes artigos não são de minha autoria e quando possível coloco o crédito de quem o publicou.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
A televisão na formação da personalidade.
Por: Carleial. Bernardino Mendonça
A Televisão tem sido um dos inventos que mais tem provocado elogios; ao mesmo tempo em que desperta um grande número de críticas. São muitos os seus defensores; mas, cresce o número dos que a condenam por condicionar a mente dos seus telespectadores, notadamente dos mais novos.
Ela fez a sua estréia no mundo, quando o escocês John Logie Baird exibiu, publicamente, no vídeo, a imagem de um rosto humano. O cenário foi Londres e o ano, o de 1926. Daquela época até os nossos dias, a televisão tem passado por muitos aperfeiçoamentos e o seu desenvolvimento tecnológico é testemunhado por todos, assim como os seus subprodutos, como o videocassete, o videofone, o videotexto, o videogame e muitos outros. Com o advento dos satélites artificiais, nos anos sessenta, a retransmissão imediata de acontecimentos, em qualquer local do Mundo, tornou-se um fato rotineiro. Com a Internet, mais uma de suas “crias”,centuplicou a possibilidade de divulgar-se diversos outros modos de comunicação; e, o que é pior, mais negativa que positiva.
Em todo lugar do Planeta (e, mesmo em outros), as imagens de ocorrências nocivas ou construtivas são levadas, instantaneamente, a todos, desde as tribos indígenas do Xingu, aos habitantes das Megalópoles; atingindo as famílias mais abastadas, bem como, os miseráveis das favelas e os trancafiados nas prisões e penitenciárias do mundo inteiro. Tornamo-nos todos, neste século, telespectadores habituais de nossa própria conduta. A influência que o invento de Baird tem exercido nas pessoas, especialmente nas crianças e adolescentes, vem provocando polêmicas acirradas, desde o seu aparecimento, décadas atrás. Em seu aspecto tecnológico, trata-se de um objeto eletrônico fantástico, cujo impacto nos meios de comunicação não pode ter sido imaginado por seus idealizadores. A sua utilidade como veículo de som e imagens, extrapolou as perspectivas dos seus pioneiros mais otimistas; tornando-se,rapidamente, em poderoso instrumento de modificação da conduta humana e de condicionador implacável das mentes, influenciando os hábitos,costumes e cultura dos povos.
Não há qualquer área da vida que a TV não exerça a sua forte interferência. Não resta dúvida que a “telinha” transformou a vida dos seres humanos, incorporando-se ao cotidiano de todos nós. Nos países desenvolvidos existe um aparelho de TV em toda residência. Já em 1972, calculava-se que existiam no mundo, cerca de 270 milhões deles. Somente nos Estados Unidos, naquele mesmo ano, mais de 55 milhões de famílias possuíam televisão, sendo que em cada residência, alguém da família permanecia por 5 horas diárias defronte a TV, absorvendo a sua programação. Pesquisas americanas, ainda naquela época, mostraram que existiam 653 estações de TV, naquele país, transmitindo 24 horas por dia, as suas programações. Ficou evidenciado que um estudante ao concluir o curso secundário, gastou 15.000 horas diante do aparelho de TV e 10.000 horas dentro de uma sala de aula. Há 38 anos atrás (este trabalho foi produzido por CARLEIAL, em 1990 e publicado em Minas gerais neste mesmo ano), já se prenunciava o poder nocivo da Televisão nas mentes das pessoas, principalmente nas mais imaturas como as crianças,adolescentes,ignorantes e débeis mentais. Um adolescente médio americano consumia 625 dias assistindo TV e 417 dias estudando.
Assim, como muitos inventos, a televisão não é boa e nem é má; ela apenas reflete o nível e o perfil mental da sociedade que lhe é contemporânea. As pessoas que a programam são as responsáveis pela deturpação da sua finalidade original: cultura, entretenimento saudável e utilidade pública. Imensos interesses comerciais, egoísticos e narcisistas se escondem por trás da televisão. Comerciantes, publicitários, os “donos” das Emissoras e suas famílias usurpam essa “nossa” concessão pública. Atores, diretores, etc.; que a usam para seus fins, quase sempre estão divorciados da saúde e do bem-estar da população que lhes deu a permissão (ou, permissividade) para nos “entreter”, nos dar Cultura e ser-nos úteis. Para essas pessoas (todos os que fazem a Televisão), pouco importa os resultados do condicionamento que impõem à Sociedade. A Televisão, a faca, a energia nuclear, as drogas e tantos outros inventos e descobertas, foram idealizadas para fins positivos e úteis para a Humanidade. Entretanto, sabemos do que são capazes tais criações, nas mãos de indivíduos inescrupulosos e insanos. No Nordeste, por exemplo, a faca é tão utilizada na cozinha; como também é usada como arma, nos muitos assassinatos que ali ocorrem.
A energia nuclear tornou-se um pesadelo para todos (que a conhecem, é claro!), quando do seu uso bélico-destrutivo. E as drogas? Quem desconhece os seus efeitos terríveis na geração festiva, descontraída e irresponsável de nossos dias! A Televisão foi, realmente, um dos maiores inventos de todos os tempos; o mais rápido e perfeito veículo de comunicação, gerando a oportunidade de fornecer ao mundo o mais potente meio de confraternizar os Povos do Mundo. Infelizmente, tornou-se uma catástrofe, com a sua ação condicionante negativa, no mesmo século que a viu nascer. As suas maiores vítimas, como já frisamos tantas vezes, são as crianças e adolescentes que, ainda, não têm a capacidade psicobiológica para analisar e discernir as mensagens desestruturantes projetadas nas suas mentes imaturas.
Ela trouxe para a intimidade dos nossos lares a escória do comportamento do homem; o submundo da torpeza humana; o lixo de uma sociedade decadente que está concretizando passo-a-passo, as previsões bíblicas de que irmãos se voltariam contra irmãos.... Etc.; e notem, que este trabalho foi feito e divulgado há mais de 20 anos atrás! Quase sempre a programação televisionada está impregnada de sexo vulgar, horror, violência, prostituição, traições conjugais e de toda ordem de crimes e pecados. A qualquer momento que se liga a TV, ela está nos oferecendo os seus múltipços ensinamentos de crime, corrupção e de erotismo compulsivo. Basta que se ligue o aparelho de TV ( e qualquer criança pode fazer isso), para que se tenha dentro de casa o mais aperfeiçoado método; os mais avançados métodos pedagógicos de desestruturação, alienação e perversão da personalidade.
Como terapeuta, costumamos perguntar às famílias que nos procuram, sobre ouso da televisão em suas casas. Quase sempre respondem que a TV fica ligada por grande parte do dia e que seus filhos são dependentes ( e os próprios pais)das novelas, filmes e programas “infantis”. As novelas merecem até um estudo à parte, por seu alto poder de condicionamento mental, físico e moral das Sociedades. Em qualquer lugar onde se instalar um canal de televisão, logo os costumes desse lugar serão deteriorados pelos maus exemplos por ela propagados. Desonestidade, imoralidade, amoralidade, perversão, prostituição, desvios sexuais e até a alimentação das pessoas será deturpada pelas maciças propagandas dos comerciantes e fabricantes de enlatados, engarrafados e de todos produtos nocivos à saúde, contaminados por agrotóxicos e conservantes de toda espécie. Enfim, tudo que é natural, torna-se artificial, superficial e deletério à vida das pessoas e do meio ambiente.
Muitos programas televisivos são fartos em cenas de violência, sexo vulgar, vadiagem, corrupção, drogas e desvios sexuais. Tudo isso, acondicionado em um enredo medíocre que é projetado de forma condicionante aos telespectadores de toda idade. As pessoas mentalmente evoluídas não conseguem digerir a maior parte dos programas que a televisão nos mostra. Embora não se possa afirmar quer não existem programas de grande utilidade social! É claro que ainda se vê bons programas; todavia, isso não é a tônica da televisão. Em recente pesquisa na França (lembrar que este Artigo foi escrito em 1999), sobre os programas de televisão, o resultado foi considerado alarmante, pelas autoridades daquele País (que sempre foi considerado muito “liberal”).
Verificaram-nos que no espaço de uma semana foram anotados 670 assassinatos, 848 agressões físicas, 15 estupros, 419 tiroteios, 11 assaltos, 32 tomadas de reféns, 27 cenas de tortura, 18 pessoas se drogando, 8 suicídios e muitas outras cenas de sexo e de violência, consideradas “leves”. Tudo isso, apenas em uma semana, num país sério, amadurecido e competente. E no nosso País, onde impera a imaturidade, a ignorância, a corrupção, a ausência de um histórico cultural e a falta de seriedade? Antes, quando havia censura, a orgia carnavalesca no vídeo era um fato corriqueiro. Imagine-se agora com o “liberô” total! Já estamos vendo nas novelas das sete, cenas de promiscuidade e desvios sexuais; não tardarão a focalizar pais, filhos e irmãos na intimidade incestuosa. Aí, o incesto, como qualquer desvio sexual, de tanto ser visto, será considerado normal e aceito por todos. Em seguida, os legisladores, juristas e aplicadores do Direito, também condicionados pela televisão, tratarão de expurgar todos esses crimes da nossa ordem jurídica. É através da repetição de palavras e cenas que se condicionam aos comportamentos positivos ou negativos.
Esse é o método mais utilizado pelos publicitários, comerciantes e patrocinadores dos programas televisionados. Lá na França, o resultado daquela pesquisa acarretou enérgicos protestos de representantes da sociedade e a cólera do governo, exigindo mudanças nas programações da televisão francesa. Isso, em 1998, porque agora, em 2010, nem o Governo e nem a população de lá (assim como os daqui), devem estar mais protestando ou se indignando com coisa alguma; pois, também já foram todos condicionados pelos exemplos permissivos das suas emissoras de TV.
De vez em quando surgem os seus defensores, argumentando que a televisão é inofensiva e, até, faz muito bem à saúde e a moral dos povos. Dizem eles que ela mostra, apenas, a nossa realidade. Dizem eles, ainda, que a violência e a amoralidade mostradas representam, tão somente, o que já existe no nosso cotidiano; que a “maldade” está é na cabeça das pessoas (como na minha que os condeno) e outras desculpas mais esfarrapadas. Tais afirmativas são tanto quanto acanhadas em sua retórica, como por seus conteúdos ingênuos e marotos. Todos nós sabemos (ou deveríamos saber) que a violência e a iniqüidade tornaram-se comuns no relacionamento do homem com o seu semelhante.
Todavia, não é por isso que devemos incutir, precocemente, nas mentes infantis, a discórdia e a torpeza, através das cenas repugnantes de violência, corrupção e de erotismo vulgar e degradante, principalmente da mulher. Afirmar-se que as crianças devem tomar conhecimento da perversidade e promiscuidade do homem, a fim de acostumarem-se cedo a tais irracionalidades e bestialidades; demonstra uma perigosa irresponsabilidade social. O Ser Humano, assim como todos os seres vivos, nasce com uma dose natural de agressividade; a fim de preservar a Espécie. O homem, assim como os demais mamíferos, possui circuitos neuronais que encerram a capacidade de agredir e de praticar o sexo, especificamente para a defesa e procriação, respectivamente. A violência e o erotismo desvairados são formas anormais e exageradas desses mecanismos naturais, provocados pelo bombardeio de estímulos perversos e doentios que incidem sobre o seu cérebro, através dos órgãos dos sentidos.
Aquelas estruturas cerebrais se ativam desde cedo e, precocemente, provocam nas pessoas, principalmente entre os imaturos, a compulsão ao crime, à violência e à promiscuidade sexual. Não é só por coincidência que o número de gravidez entre menores de 17 anos, vem aumentando consideravelmente, em nosso País e em todo o mundo. Em um Seminário sobre o adolescente, o médico e pesquisador João Tavares Leite Reis, declarou que 70% das jovens iniciam suas vidas sexuais na faixa etária de 16 a 17 anos e os rapazes, nessa mesma idade. Sabemos que é nesse período que a alienação e a irresponsabilidade pessoal, familiar e social, são mais comuns entre eles (isto em 1990; agora, em 2010, essa irresponsabilidade é mil vezes maior).
Neles, a alienação é patente nos estudos, no trabalho e no saber cultural. Na pratica, poucos estão preocupados com a Nação ou com quem quer que seja; a não ser com eles mesmos. O pior, é que agora, nem os adultos e velhos se encantam mais com “Pátria” e “Nação”; tal é o desengano e desencanto causado pelos péssimos exemplos dos governantes,políticos e autoridades reinantes! A turma “jovem” (entre aspas, porque considero jovem aquele que eleva o conceito de dignidade humana; tal como fez os jovens Madre Tereza de Calcutá; João Paulo II, Irmã Dulce, Martin Luter King, Ghandi, Rui Barbosa,Caxias,Tamandaré e muitos outros jovens que souberam honrar e dignificar a espécie dos Humanos); a turma “jovem”, repetindo, em sua maioria, quer mesmo é diversão desastrada, carros, motos, sexo promíscuo, bebidas, drogas, ociosidade e irresponsabilidade pessoal e social. Um fato que passa despercebido pela maioria das pessoas, é a idade precoce dos marginais de toda espécie, como os assaltantes, criminosos, seqüestradores e outros, que aparecem nos noticiários jornalísticos, cada vez mais novos em idade e atacando-nos com requintes de perversidade. O curioso é que os bandidos mais idosos são menos sanguinários e mais benevolentes com as suas vítimas (devemos até torcer para, quando formos atacados, sejamos pelo menos, por bandidos mais velhos!).
A televisão, como escola de graduação do crime e da desestruturação social, é bastante convincente e promissora. Com muita propriedade a Logosofia conhece os estímulos negativos que ela impõe sobre as crianças e adolescentes. Através do seu mestre e criador, o notável humanista argentino Gonzalez Pecotche, o pensamento logosófico é enfático quanto à “tremenda avalancha de estímulos negativos da hora presente, que arrasta consigo os germens da decomposição moral e espiritual, que propaga a corrupção dos costumes e o desprezo pela dignidade humana”. É claro que tal avalancha desagregadora se origina da televisão, sem nos esquecermos da contribuição nociva do Cinema, do teatro,, da Literatura chula e de baixo nível que atulham as casas de projeção, os palcos, as vidiotecas, as livrarias, etc. Quem também analisa , também, o assunto com preocupação e clareza é o Professor e escritor mineiro, João Luiz de Freitas que em seu livro “Despertar de um Senso Crítico”(Ed. Lutador,1988), focaliza com profundidade os conflitos originados da televisão,relacionados com a educação,sexualidade e personalidade das pessoas mais novas.
Inúmeros são os exemplos de desagregação individual e social, provocados pela programação nociva da televisão e do cinema. Há tempos, numa pequena cidade da Alemanha, passou um seriado na TV, em que um adolescente psicopata violou e matou algumas meninas de sua idade. Na semana seguinte à exposição da referida Série televisiva, três mocinhas foram estupradas e estranguladas por um maníaco de 16 anos. Após a sua captura, confessou que praticou os crimes estimulado e seguindo o modelo do psicopata do filme. Nos Estados Unidos, há poucos anos, outro “vidiota” (termo usado por João Luiz de Freitas para designar o telespectador idiota) de 13 anos, arrebentou a cabeças de próprio pai com um tiro de escopeta porque este desligara o aparelho de TV, quando o filho assistia a um filme de violência. Exemplos como estes, de estimulação cerebral negativa veiculada pela TV e suas congêneres, são cada vez mais freqüentes e conhecidas.
Em 1973 (atentem que foi há 37 anos!), tribunais ingleses julgaram crimes semelhantes, induzidos pela programação televisiva. Três deles se sobressaíram nos noticiários da época pela violência e idade dos criminosos. Um indivíduo de 15 anos fabricou uma bomba (que aprendeu a fazer em um filme) e a atirou nos professores que o haviam reprovado na escola. Outro menino de 6 anos se atirou pela janela de um prédio, com uma capa amarrada nas costas, após ver na televisão o “Super-Homem” cruzar, livremente, os céus de “Metrópoles”. Um terceiro “vidiota” colocou vidro moído na refeição dos seus familiares, alegando depois, que queria ver se acontecia o mesmo que viu em um filme que vira na TV. Estes fatos não são isolados! As conseqüências negativas e funestas decorrentes do impacto e influência da televisão no comportamento individual e social; são, verdadeiramente, catastróficas.
Muitas vezes visitamos alguém, e lá, encontramos a família “hipnotizada” pelas novelas; esses dramalhões repletos de violência, perversão sexual, drogas, adultério, vadiagem, futilidades e tantos outros fatores de deformação do caráter. A violência e o erotismo têm sido as mais desastrosas conseqüências da televisão e do cinema. O comportamento agressivo anti-social tem atingido níveis alarmantes no mundo inteiro (note que estamos no ano de 1999!) e a violência tornou-se a marca registrada do nosso tempo. O número de abortos no Brasil (estimativa de 1999), segundo se tem noticiado é de mais de 5.000.000; sendo que a metade deles é praticada por adolescentes jovens, que pouco ou nada sabem sobre a sua própria sexualidade. Conforme alertavam alguns especialistas em 1999, calcula-se que 4 mulheres morrem diariamente, em decorrência desse volumoso índice abortivo. Mesmo que se saiam bem, fisicamente, do aborto, um grande número delas padece e padecerá de enorme sentimento de culpa que lhes acompanhará pelo resto de suas vidas, pela conscientização da destruição de seu filho indefeso, fruto de um prazer momentâneo e fugaz. Quantas vezes atendemos pacientes dessa natureza, deprimidas e com desejos de autodestruição!
Quando uma criança se acostuma com o linguajar, trajes e trejeitos eróticos de apresentadores de programas “infantis”, ela certamente irá imitá-los. O próprio modo de vestir-se e comportar-se dos pequenos telespectadores se assemelham aos padrões modeladores desses apresentadores. O pior é sabermos que a trajetória “artística” de alguns desses atores e atrizes de televisão e cinema, inclui passagens por filmes e revistas pornográficos (chamados por eles de “eróticos” e nus “artísticos”), ocasião em mostram o íntimo de seus corpos, sem qualquer pudor ou vergonha. Nas bancas de jornais, suas imagens e fotos são mostradas e expostas para o mundo inteiro e vendidas para quem oferecer as “trintas moedas”. Muitos pais irresponsáveis e levianos levam para casa tais revistas, dando oportunidade para seus filhos menores verem seus modelos vistos na TV, ali bem perto deles, ”possuídos” e manuseados por eles, incutindo-lhes na prática, os prazeres precoces de um corpo e de uma mente imaturas.
Uma coisa é certa; sem sombra de dúvida; essas crianças irão, também, exibirem seus corpos, desnudados e com a permissão dos seus pais, também condicionados e entorpecidos pelas mensagens liminares ou subliminares da TV. Elas irão querer sentir os prazeres da estimulação erótica, precocemente estimuladas pelos exemplos desses modelos negativos de conduta. Basta se observar os trajes, a linguagem, a postura lasciva, erótica e provocante da grande maioria de meninas, que mal saíram da puberdade. Tal conduta é vista, facilmente, em frente aos colégios, festinhas, cursinhos, barzinhos e outros locais barulhentos e cervejizados. Temos visto, há bastante tempo e vezes, nas imediações de muitos colégios, meninas seminuas, trocando carícias, publicamente, em intimidade erótica com rapazolas que mal saíram das fraldas; algumas vezes em pleno horário das aulas. Sem falarmos nas conseqüências da fuga do estudo que tais prazeres precoces invocam, temos o aumento alarmante do número de abortos (já comentado acima) e de transmissão das doenças sexuais que ameaçam a todos.
Tem também outro ponto muito nocivo na TV: é o costume de apresentarem filmes feitos originalmente para o Cinema, onde a sua apresentação se dá em ambiente fechado, para uma platéia que escolheu assisti-los. Ocorre que tais filmes são apresentados pela TV, ao alcance de todos, sem qualquer impedimento para as crianças, expondo a elas cenas que agridem a religiosidade, a moral e os bons costumes. Aliás, a religião tem sido alvo dos interesses mercenários e políticos do Cinema e de muitos meios de comunicação. Eles minam o espírito da Fé Cristã, justamente porque ela sempre foi o freio da licenciosidade, do pecado e do crime (Crime é o “pecado” do homem contra o homem; Pecado é o crime do homem contra Deus). Torna-se difícil avaliar-se as conseqüências patológicas da TV sobre as mentes, quando não se conhece todos os mecanismos neuropsicológicos e tampouco, quando não se tem contato com as vítimas desse processo de decadência, patrocinado pela TV e seus subprodutos (vídeos,Internet e outros).Os psicoterapeutas mais responsáveis, que estudam com profundidade o cérebro e a mente, bem como os que atendem, diariamente, pessoas mentalmente prejudicadas pelas aberrações televisionadas, sabem muito bem porque se deve condenar, com veemência muitos programas, filmes e publicidades veiculados pela televisão. Temos vistos alguns debates e ouvido opiniões sobre este assunto na Imprensa e na TV, quando muitas pessoas defendem com entusiasmo qualquer tipo de programação das emissoras.
Afirmam essas pessoas que não vêem nenhuma inconveniência ou interferência negativa no desenvolvimento emocional e na personalidade dos telespectadores; mesmo em infanto-juvenis! Outros desses defensores, com candura e ingenuidade angelicais, afirmam que “não tem nada a ver” que criancinhas assistam as cenas de nudismo,erotismo e violência que lhes são, habitualmente, apresentadas no vídeo. Resta tecer alguns comentários e análise sobre essas pessoas tão “liberais” para com os nossos filhos. Quase sempre esse polêmico e grave problema é discutido e manipulado entre aqueles que dependem da Televisão para os seus sustentos ou dela necessitam para a sua autopromoção, como os donos de Emissoras de TV e Rádio, diretores e funcionários delas; bem como os apresentadores de programas, autores de novelas, artistas, comerciantes, publicitários, fabricantes de aparelhos de TV; enfim, todos aqueles que estão ligados e dependem dos meios condicionadores de hábitos e costumes.
De modo geral, tais pessoas não têm competência para opinarem sobre patologias mentais ( e, quando têm, são vítimas omissas do poder da Mídia ou interessados em promover suas auto-imagens). Assim sendo, é natural que defendam e se identifiquem com a TV e seus associados. É o mesmo que promover-se um amplo debate sobre a utilidade da fabricação de armas e convidando para a discussão os representantes da indústria bélica e os usuários de armas. Ultimamente (em, 1990), as emissoras descobriram um filão de ouro, que são os programas intitulados de “infantis”.
Eles superlotam os horários das crianças, aproveitando-se da facilidade em condicionar as suas frágeis mentes, a fim de vender os mais variados produtos de alimentos artificiais, até os mais falsos artifícios da Moda. Deterioram a alimentação das crianças e afetam a qualidade de vida delas e de toda a família. Discos, fitas, brinquedos; quase sempre simbolizando violência alienígena; revistinhas, hábitos nocivos importados de países moralmente decadentes, etc. Toda essa quinquilharia inútil e nociva é vendida na esteira do sucesso de tais programas infanto-comerciais, cujos apresentadores não raro, foram, são ou vão ser modelos eróticos de revistas que vão deleitar os irresponsáveis pais dessas crianças que serão precocemente erotizadas por esses modelos de permissividade. Será muito promissora a safra de “ninfetas” que futuramente estarão se prostituíndo e se exibindo nuas, nessas Revistas, Jornais, Vídeos, Filmes e em tantos outros veículos de prostituição e promiscuidade. E os Pais, continuarão a chorar por seus filhos!!!
Muitos outros ainda defendem a TV, por desconhecerem os efeitos, no cérebro, produzidos pela estimulação negativa que recai sobre as pessoas, cujas personalidades encontram-se em formação e,naquelas, que a tem deteriorada. De todos os defensores da Televisão, o que mais surpreende são as opiniões de certos profissionais da área da saúde mental e da educação. Eles deveriam conhecer a trajetória dos estímulos veiculados pelo Vídeo, no cérebro do telespectador. Deveriam conhecer as conseqüências negativas provocadas pelas cenas de violência e erotismo no sistema límbico e hipotálamo-hipofisário, para a produção da mente (mentalidade) infantil. Deveriam saber sobre os famosos experimentos de Albert Bandura e colaboradores, na Universidade de Stanford. Bandura expôs uma turma de crianças do pré-escolar à cenas de agressividade no vídeo, por 30 minutos; ao mesmo tempo que mostrava a outro grupo de crianças, da mesma idade, cenas neutras, sem agressividade.
Após as exposições dos filmes, as crianças que haviam visto as imagens de cenas agressivas, apresentaram comportamentos agressivos e violentos. As outras crianças que tinham visto o filme neutro e sem cenas de agressão; não apresentaram nenhum sinal de agressividade, após o experimento. Albert Bandura tornou-se conhecido no meio acadêmico e educacional, por essa clara e científica demonstração de que grande parte do que uma criança aprende é resultado da observação e imitação do comportamento de outros, de quem toma por modelo, de forma inconsciente. Posteriormente, outros pesquisadores validaram os resultados de Bandura, em demais experimentos similares. Tenho duas explicações para as afirmativas tão ingênuas (e permissivas) que a programação televisiva “não tem nada a ver” com a formação da personalidade: tais pessoas nada sabem de Biologia cerebral (o que é inconcebível na formação do Psicoterapeuta; já que o cérebro é o substrato material da conduta animal) ou elas buscam a autopromoção, desempenhando o papel de “bonzinhos”, ”legais”, ”liberais” e de “não-caretas”, para uma imensa platéia de imaturos e permissivos que esperam ouvir isso mesmo delas.
Seria bom para toda a Sociedade que esses “especialistas liberais” revejam os seus estudos de Neuro e Psicobiologia, a fim de recordarem os ensinamentos ministrados nos seus cursos, sobre a estimulação neuro-sensoriais. As primeiras experiências sensoriais na infância são tão importantes e marcantes que tais impressões são as últimas a sobreviverem quando o cérebro se deteriora na senilidade, nos traumatismos físicos, mentais e quando ocorre a morte. São elas, também, as primeiras a voltarem à recordação, após períodos de amnésia. Comprovam-se, assim, quão fortes e persistentes são as imagens e impressões vivenciadas, presenciadas e gravadas na infância. Finalmente, desejamos alertar os Pais e todos aqueles envolvidos na educação e formação da personalidade humana, sobre os graves problemas psicossomáticos, sociais e econômicos que irão enfrentar, cedo ou tarde, caso continuem permitindo que os seus filhos e educandos continuem se desestruturando com os péssimos exemplos mostrados pela Televisão, Filmes, Vídeos, Revistas, Internet (esta, a pior de todos) e outros veículos que veicularem e divulgarem cenas e ensinamentos desestruturadores da personalidade.
Os pais, educadores, governantes, autoridades e políticos, não devem se deixar levar pelas opiniões de quem não tem competência para discutirem, seriamente, tão grave problema; ou de comerciantes, empresários, industriais e funcionários da Mídia ou que dela dependem para venderem seus produtos ou imagens. Melhor seria que os aparelhos de televisão fossem desligados na maioria de seus programas, dando lugar a um intercâmbio mais salutar entre os membros da Família. Melhor seria que esses meios de comunicação estimulassem os bons costumes, como a honestidade, a moral, a dignidade, o amor entre as pessoas; divulgando novelas e programas educativos com os bons exemplos dos Homens que dignificaram a nossa Espécie, como os heróis, mártires e benfeitores da humanidade; ao invés de exemplificarem e imporem os péssimos exemplos do lixo do comportamento humano que diariamente vemos e que nos faz vítimas indefesas , desses produtores, em massa, de imaturos que martirizam e destroem.
Finalmente, compare o que aqui foi dito e publicado há mais de duas décadas, com o que hoje vivenciamos ! Imagine como será o comportamento da maioria das pessoas, nas próximas décadas, com o acesso ilimitado de todos às mensagens,imagens e modelos expostos na Internet ! Procure, em qualquer Site de “procura”, o que quiser saber sobre: como se prostituir, como se deve matar, como se deve roubar, como se deve corromper,etc. etc.! Neles, encontrará toda espécie de ensinamentos, desde os mais úteis à Sociedade; até os mais aprimorados instrumentos pedagógicos para a prática da promiscuidade física e mental. Pais e Educadores! Querem continuar sofrendo, chorando e se empobrecendo com as mazelas e pragas que os seus filhos estão provocando em si mesmos e nos filhos dos outros pais e na sociedade; continuem a deixá-los expostos ao condicionamento perverso e nocivo dos meios de comunicação; não supervisionando a conduta das suas crianças, não lhes dando bons exemplos de decência, honestidade e cidadania; bem como, permitindo que eles façam o que quiserem, com receios de lhes causarem “traumas”!
Autor: CARLEIAL. Bernardino Mendonça.
Psicólogo-Clínico pela Universidade católica de Minas Gerais
Estudante de Direito da Faculdade de Direito Estácio de Sá, em Belo Horizonte - MG
Escritor e Pesquisador nas áreas da Psicobiologia e do Direito.
Este Texto foi escrito e divulgado em Jornais do Estado de Minas Gerais, principalmente pelo “O Estado de Minas”, no Editorial da Jornalista e editora Anna Marina Siqueira, em agosto de 1990. Também foi divulgado em livro, Anais e citações diversas, inclusive no Exterior.
A Televisão tem sido um dos inventos que mais tem provocado elogios; ao mesmo tempo em que desperta um grande número de críticas. São muitos os seus defensores; mas, cresce o número dos que a condenam por condicionar a mente dos seus telespectadores, notadamente dos mais novos.
Ela fez a sua estréia no mundo, quando o escocês John Logie Baird exibiu, publicamente, no vídeo, a imagem de um rosto humano. O cenário foi Londres e o ano, o de 1926. Daquela época até os nossos dias, a televisão tem passado por muitos aperfeiçoamentos e o seu desenvolvimento tecnológico é testemunhado por todos, assim como os seus subprodutos, como o videocassete, o videofone, o videotexto, o videogame e muitos outros. Com o advento dos satélites artificiais, nos anos sessenta, a retransmissão imediata de acontecimentos, em qualquer local do Mundo, tornou-se um fato rotineiro. Com a Internet, mais uma de suas “crias”,centuplicou a possibilidade de divulgar-se diversos outros modos de comunicação; e, o que é pior, mais negativa que positiva.
Em todo lugar do Planeta (e, mesmo em outros), as imagens de ocorrências nocivas ou construtivas são levadas, instantaneamente, a todos, desde as tribos indígenas do Xingu, aos habitantes das Megalópoles; atingindo as famílias mais abastadas, bem como, os miseráveis das favelas e os trancafiados nas prisões e penitenciárias do mundo inteiro. Tornamo-nos todos, neste século, telespectadores habituais de nossa própria conduta. A influência que o invento de Baird tem exercido nas pessoas, especialmente nas crianças e adolescentes, vem provocando polêmicas acirradas, desde o seu aparecimento, décadas atrás. Em seu aspecto tecnológico, trata-se de um objeto eletrônico fantástico, cujo impacto nos meios de comunicação não pode ter sido imaginado por seus idealizadores. A sua utilidade como veículo de som e imagens, extrapolou as perspectivas dos seus pioneiros mais otimistas; tornando-se,rapidamente, em poderoso instrumento de modificação da conduta humana e de condicionador implacável das mentes, influenciando os hábitos,costumes e cultura dos povos.
Não há qualquer área da vida que a TV não exerça a sua forte interferência. Não resta dúvida que a “telinha” transformou a vida dos seres humanos, incorporando-se ao cotidiano de todos nós. Nos países desenvolvidos existe um aparelho de TV em toda residência. Já em 1972, calculava-se que existiam no mundo, cerca de 270 milhões deles. Somente nos Estados Unidos, naquele mesmo ano, mais de 55 milhões de famílias possuíam televisão, sendo que em cada residência, alguém da família permanecia por 5 horas diárias defronte a TV, absorvendo a sua programação. Pesquisas americanas, ainda naquela época, mostraram que existiam 653 estações de TV, naquele país, transmitindo 24 horas por dia, as suas programações. Ficou evidenciado que um estudante ao concluir o curso secundário, gastou 15.000 horas diante do aparelho de TV e 10.000 horas dentro de uma sala de aula. Há 38 anos atrás (este trabalho foi produzido por CARLEIAL, em 1990 e publicado em Minas gerais neste mesmo ano), já se prenunciava o poder nocivo da Televisão nas mentes das pessoas, principalmente nas mais imaturas como as crianças,adolescentes,ignorantes e débeis mentais. Um adolescente médio americano consumia 625 dias assistindo TV e 417 dias estudando.
Assim, como muitos inventos, a televisão não é boa e nem é má; ela apenas reflete o nível e o perfil mental da sociedade que lhe é contemporânea. As pessoas que a programam são as responsáveis pela deturpação da sua finalidade original: cultura, entretenimento saudável e utilidade pública. Imensos interesses comerciais, egoísticos e narcisistas se escondem por trás da televisão. Comerciantes, publicitários, os “donos” das Emissoras e suas famílias usurpam essa “nossa” concessão pública. Atores, diretores, etc.; que a usam para seus fins, quase sempre estão divorciados da saúde e do bem-estar da população que lhes deu a permissão (ou, permissividade) para nos “entreter”, nos dar Cultura e ser-nos úteis. Para essas pessoas (todos os que fazem a Televisão), pouco importa os resultados do condicionamento que impõem à Sociedade. A Televisão, a faca, a energia nuclear, as drogas e tantos outros inventos e descobertas, foram idealizadas para fins positivos e úteis para a Humanidade. Entretanto, sabemos do que são capazes tais criações, nas mãos de indivíduos inescrupulosos e insanos. No Nordeste, por exemplo, a faca é tão utilizada na cozinha; como também é usada como arma, nos muitos assassinatos que ali ocorrem.
A energia nuclear tornou-se um pesadelo para todos (que a conhecem, é claro!), quando do seu uso bélico-destrutivo. E as drogas? Quem desconhece os seus efeitos terríveis na geração festiva, descontraída e irresponsável de nossos dias! A Televisão foi, realmente, um dos maiores inventos de todos os tempos; o mais rápido e perfeito veículo de comunicação, gerando a oportunidade de fornecer ao mundo o mais potente meio de confraternizar os Povos do Mundo. Infelizmente, tornou-se uma catástrofe, com a sua ação condicionante negativa, no mesmo século que a viu nascer. As suas maiores vítimas, como já frisamos tantas vezes, são as crianças e adolescentes que, ainda, não têm a capacidade psicobiológica para analisar e discernir as mensagens desestruturantes projetadas nas suas mentes imaturas.
Ela trouxe para a intimidade dos nossos lares a escória do comportamento do homem; o submundo da torpeza humana; o lixo de uma sociedade decadente que está concretizando passo-a-passo, as previsões bíblicas de que irmãos se voltariam contra irmãos.... Etc.; e notem, que este trabalho foi feito e divulgado há mais de 20 anos atrás! Quase sempre a programação televisionada está impregnada de sexo vulgar, horror, violência, prostituição, traições conjugais e de toda ordem de crimes e pecados. A qualquer momento que se liga a TV, ela está nos oferecendo os seus múltipços ensinamentos de crime, corrupção e de erotismo compulsivo. Basta que se ligue o aparelho de TV ( e qualquer criança pode fazer isso), para que se tenha dentro de casa o mais aperfeiçoado método; os mais avançados métodos pedagógicos de desestruturação, alienação e perversão da personalidade.
Como terapeuta, costumamos perguntar às famílias que nos procuram, sobre ouso da televisão em suas casas. Quase sempre respondem que a TV fica ligada por grande parte do dia e que seus filhos são dependentes ( e os próprios pais)das novelas, filmes e programas “infantis”. As novelas merecem até um estudo à parte, por seu alto poder de condicionamento mental, físico e moral das Sociedades. Em qualquer lugar onde se instalar um canal de televisão, logo os costumes desse lugar serão deteriorados pelos maus exemplos por ela propagados. Desonestidade, imoralidade, amoralidade, perversão, prostituição, desvios sexuais e até a alimentação das pessoas será deturpada pelas maciças propagandas dos comerciantes e fabricantes de enlatados, engarrafados e de todos produtos nocivos à saúde, contaminados por agrotóxicos e conservantes de toda espécie. Enfim, tudo que é natural, torna-se artificial, superficial e deletério à vida das pessoas e do meio ambiente.
Muitos programas televisivos são fartos em cenas de violência, sexo vulgar, vadiagem, corrupção, drogas e desvios sexuais. Tudo isso, acondicionado em um enredo medíocre que é projetado de forma condicionante aos telespectadores de toda idade. As pessoas mentalmente evoluídas não conseguem digerir a maior parte dos programas que a televisão nos mostra. Embora não se possa afirmar quer não existem programas de grande utilidade social! É claro que ainda se vê bons programas; todavia, isso não é a tônica da televisão. Em recente pesquisa na França (lembrar que este Artigo foi escrito em 1999), sobre os programas de televisão, o resultado foi considerado alarmante, pelas autoridades daquele País (que sempre foi considerado muito “liberal”).
Verificaram-nos que no espaço de uma semana foram anotados 670 assassinatos, 848 agressões físicas, 15 estupros, 419 tiroteios, 11 assaltos, 32 tomadas de reféns, 27 cenas de tortura, 18 pessoas se drogando, 8 suicídios e muitas outras cenas de sexo e de violência, consideradas “leves”. Tudo isso, apenas em uma semana, num país sério, amadurecido e competente. E no nosso País, onde impera a imaturidade, a ignorância, a corrupção, a ausência de um histórico cultural e a falta de seriedade? Antes, quando havia censura, a orgia carnavalesca no vídeo era um fato corriqueiro. Imagine-se agora com o “liberô” total! Já estamos vendo nas novelas das sete, cenas de promiscuidade e desvios sexuais; não tardarão a focalizar pais, filhos e irmãos na intimidade incestuosa. Aí, o incesto, como qualquer desvio sexual, de tanto ser visto, será considerado normal e aceito por todos. Em seguida, os legisladores, juristas e aplicadores do Direito, também condicionados pela televisão, tratarão de expurgar todos esses crimes da nossa ordem jurídica. É através da repetição de palavras e cenas que se condicionam aos comportamentos positivos ou negativos.
Esse é o método mais utilizado pelos publicitários, comerciantes e patrocinadores dos programas televisionados. Lá na França, o resultado daquela pesquisa acarretou enérgicos protestos de representantes da sociedade e a cólera do governo, exigindo mudanças nas programações da televisão francesa. Isso, em 1998, porque agora, em 2010, nem o Governo e nem a população de lá (assim como os daqui), devem estar mais protestando ou se indignando com coisa alguma; pois, também já foram todos condicionados pelos exemplos permissivos das suas emissoras de TV.
De vez em quando surgem os seus defensores, argumentando que a televisão é inofensiva e, até, faz muito bem à saúde e a moral dos povos. Dizem eles que ela mostra, apenas, a nossa realidade. Dizem eles, ainda, que a violência e a amoralidade mostradas representam, tão somente, o que já existe no nosso cotidiano; que a “maldade” está é na cabeça das pessoas (como na minha que os condeno) e outras desculpas mais esfarrapadas. Tais afirmativas são tanto quanto acanhadas em sua retórica, como por seus conteúdos ingênuos e marotos. Todos nós sabemos (ou deveríamos saber) que a violência e a iniqüidade tornaram-se comuns no relacionamento do homem com o seu semelhante.
Todavia, não é por isso que devemos incutir, precocemente, nas mentes infantis, a discórdia e a torpeza, através das cenas repugnantes de violência, corrupção e de erotismo vulgar e degradante, principalmente da mulher. Afirmar-se que as crianças devem tomar conhecimento da perversidade e promiscuidade do homem, a fim de acostumarem-se cedo a tais irracionalidades e bestialidades; demonstra uma perigosa irresponsabilidade social. O Ser Humano, assim como todos os seres vivos, nasce com uma dose natural de agressividade; a fim de preservar a Espécie. O homem, assim como os demais mamíferos, possui circuitos neuronais que encerram a capacidade de agredir e de praticar o sexo, especificamente para a defesa e procriação, respectivamente. A violência e o erotismo desvairados são formas anormais e exageradas desses mecanismos naturais, provocados pelo bombardeio de estímulos perversos e doentios que incidem sobre o seu cérebro, através dos órgãos dos sentidos.
Aquelas estruturas cerebrais se ativam desde cedo e, precocemente, provocam nas pessoas, principalmente entre os imaturos, a compulsão ao crime, à violência e à promiscuidade sexual. Não é só por coincidência que o número de gravidez entre menores de 17 anos, vem aumentando consideravelmente, em nosso País e em todo o mundo. Em um Seminário sobre o adolescente, o médico e pesquisador João Tavares Leite Reis, declarou que 70% das jovens iniciam suas vidas sexuais na faixa etária de 16 a 17 anos e os rapazes, nessa mesma idade. Sabemos que é nesse período que a alienação e a irresponsabilidade pessoal, familiar e social, são mais comuns entre eles (isto em 1990; agora, em 2010, essa irresponsabilidade é mil vezes maior).
Neles, a alienação é patente nos estudos, no trabalho e no saber cultural. Na pratica, poucos estão preocupados com a Nação ou com quem quer que seja; a não ser com eles mesmos. O pior, é que agora, nem os adultos e velhos se encantam mais com “Pátria” e “Nação”; tal é o desengano e desencanto causado pelos péssimos exemplos dos governantes,políticos e autoridades reinantes! A turma “jovem” (entre aspas, porque considero jovem aquele que eleva o conceito de dignidade humana; tal como fez os jovens Madre Tereza de Calcutá; João Paulo II, Irmã Dulce, Martin Luter King, Ghandi, Rui Barbosa,Caxias,Tamandaré e muitos outros jovens que souberam honrar e dignificar a espécie dos Humanos); a turma “jovem”, repetindo, em sua maioria, quer mesmo é diversão desastrada, carros, motos, sexo promíscuo, bebidas, drogas, ociosidade e irresponsabilidade pessoal e social. Um fato que passa despercebido pela maioria das pessoas, é a idade precoce dos marginais de toda espécie, como os assaltantes, criminosos, seqüestradores e outros, que aparecem nos noticiários jornalísticos, cada vez mais novos em idade e atacando-nos com requintes de perversidade. O curioso é que os bandidos mais idosos são menos sanguinários e mais benevolentes com as suas vítimas (devemos até torcer para, quando formos atacados, sejamos pelo menos, por bandidos mais velhos!).
A televisão, como escola de graduação do crime e da desestruturação social, é bastante convincente e promissora. Com muita propriedade a Logosofia conhece os estímulos negativos que ela impõe sobre as crianças e adolescentes. Através do seu mestre e criador, o notável humanista argentino Gonzalez Pecotche, o pensamento logosófico é enfático quanto à “tremenda avalancha de estímulos negativos da hora presente, que arrasta consigo os germens da decomposição moral e espiritual, que propaga a corrupção dos costumes e o desprezo pela dignidade humana”. É claro que tal avalancha desagregadora se origina da televisão, sem nos esquecermos da contribuição nociva do Cinema, do teatro,, da Literatura chula e de baixo nível que atulham as casas de projeção, os palcos, as vidiotecas, as livrarias, etc. Quem também analisa , também, o assunto com preocupação e clareza é o Professor e escritor mineiro, João Luiz de Freitas que em seu livro “Despertar de um Senso Crítico”(Ed. Lutador,1988), focaliza com profundidade os conflitos originados da televisão,relacionados com a educação,sexualidade e personalidade das pessoas mais novas.
Inúmeros são os exemplos de desagregação individual e social, provocados pela programação nociva da televisão e do cinema. Há tempos, numa pequena cidade da Alemanha, passou um seriado na TV, em que um adolescente psicopata violou e matou algumas meninas de sua idade. Na semana seguinte à exposição da referida Série televisiva, três mocinhas foram estupradas e estranguladas por um maníaco de 16 anos. Após a sua captura, confessou que praticou os crimes estimulado e seguindo o modelo do psicopata do filme. Nos Estados Unidos, há poucos anos, outro “vidiota” (termo usado por João Luiz de Freitas para designar o telespectador idiota) de 13 anos, arrebentou a cabeças de próprio pai com um tiro de escopeta porque este desligara o aparelho de TV, quando o filho assistia a um filme de violência. Exemplos como estes, de estimulação cerebral negativa veiculada pela TV e suas congêneres, são cada vez mais freqüentes e conhecidas.
Em 1973 (atentem que foi há 37 anos!), tribunais ingleses julgaram crimes semelhantes, induzidos pela programação televisiva. Três deles se sobressaíram nos noticiários da época pela violência e idade dos criminosos. Um indivíduo de 15 anos fabricou uma bomba (que aprendeu a fazer em um filme) e a atirou nos professores que o haviam reprovado na escola. Outro menino de 6 anos se atirou pela janela de um prédio, com uma capa amarrada nas costas, após ver na televisão o “Super-Homem” cruzar, livremente, os céus de “Metrópoles”. Um terceiro “vidiota” colocou vidro moído na refeição dos seus familiares, alegando depois, que queria ver se acontecia o mesmo que viu em um filme que vira na TV. Estes fatos não são isolados! As conseqüências negativas e funestas decorrentes do impacto e influência da televisão no comportamento individual e social; são, verdadeiramente, catastróficas.
Muitas vezes visitamos alguém, e lá, encontramos a família “hipnotizada” pelas novelas; esses dramalhões repletos de violência, perversão sexual, drogas, adultério, vadiagem, futilidades e tantos outros fatores de deformação do caráter. A violência e o erotismo têm sido as mais desastrosas conseqüências da televisão e do cinema. O comportamento agressivo anti-social tem atingido níveis alarmantes no mundo inteiro (note que estamos no ano de 1999!) e a violência tornou-se a marca registrada do nosso tempo. O número de abortos no Brasil (estimativa de 1999), segundo se tem noticiado é de mais de 5.000.000; sendo que a metade deles é praticada por adolescentes jovens, que pouco ou nada sabem sobre a sua própria sexualidade. Conforme alertavam alguns especialistas em 1999, calcula-se que 4 mulheres morrem diariamente, em decorrência desse volumoso índice abortivo. Mesmo que se saiam bem, fisicamente, do aborto, um grande número delas padece e padecerá de enorme sentimento de culpa que lhes acompanhará pelo resto de suas vidas, pela conscientização da destruição de seu filho indefeso, fruto de um prazer momentâneo e fugaz. Quantas vezes atendemos pacientes dessa natureza, deprimidas e com desejos de autodestruição!
Quando uma criança se acostuma com o linguajar, trajes e trejeitos eróticos de apresentadores de programas “infantis”, ela certamente irá imitá-los. O próprio modo de vestir-se e comportar-se dos pequenos telespectadores se assemelham aos padrões modeladores desses apresentadores. O pior é sabermos que a trajetória “artística” de alguns desses atores e atrizes de televisão e cinema, inclui passagens por filmes e revistas pornográficos (chamados por eles de “eróticos” e nus “artísticos”), ocasião em mostram o íntimo de seus corpos, sem qualquer pudor ou vergonha. Nas bancas de jornais, suas imagens e fotos são mostradas e expostas para o mundo inteiro e vendidas para quem oferecer as “trintas moedas”. Muitos pais irresponsáveis e levianos levam para casa tais revistas, dando oportunidade para seus filhos menores verem seus modelos vistos na TV, ali bem perto deles, ”possuídos” e manuseados por eles, incutindo-lhes na prática, os prazeres precoces de um corpo e de uma mente imaturas.
Uma coisa é certa; sem sombra de dúvida; essas crianças irão, também, exibirem seus corpos, desnudados e com a permissão dos seus pais, também condicionados e entorpecidos pelas mensagens liminares ou subliminares da TV. Elas irão querer sentir os prazeres da estimulação erótica, precocemente estimuladas pelos exemplos desses modelos negativos de conduta. Basta se observar os trajes, a linguagem, a postura lasciva, erótica e provocante da grande maioria de meninas, que mal saíram da puberdade. Tal conduta é vista, facilmente, em frente aos colégios, festinhas, cursinhos, barzinhos e outros locais barulhentos e cervejizados. Temos visto, há bastante tempo e vezes, nas imediações de muitos colégios, meninas seminuas, trocando carícias, publicamente, em intimidade erótica com rapazolas que mal saíram das fraldas; algumas vezes em pleno horário das aulas. Sem falarmos nas conseqüências da fuga do estudo que tais prazeres precoces invocam, temos o aumento alarmante do número de abortos (já comentado acima) e de transmissão das doenças sexuais que ameaçam a todos.
Tem também outro ponto muito nocivo na TV: é o costume de apresentarem filmes feitos originalmente para o Cinema, onde a sua apresentação se dá em ambiente fechado, para uma platéia que escolheu assisti-los. Ocorre que tais filmes são apresentados pela TV, ao alcance de todos, sem qualquer impedimento para as crianças, expondo a elas cenas que agridem a religiosidade, a moral e os bons costumes. Aliás, a religião tem sido alvo dos interesses mercenários e políticos do Cinema e de muitos meios de comunicação. Eles minam o espírito da Fé Cristã, justamente porque ela sempre foi o freio da licenciosidade, do pecado e do crime (Crime é o “pecado” do homem contra o homem; Pecado é o crime do homem contra Deus). Torna-se difícil avaliar-se as conseqüências patológicas da TV sobre as mentes, quando não se conhece todos os mecanismos neuropsicológicos e tampouco, quando não se tem contato com as vítimas desse processo de decadência, patrocinado pela TV e seus subprodutos (vídeos,Internet e outros).Os psicoterapeutas mais responsáveis, que estudam com profundidade o cérebro e a mente, bem como os que atendem, diariamente, pessoas mentalmente prejudicadas pelas aberrações televisionadas, sabem muito bem porque se deve condenar, com veemência muitos programas, filmes e publicidades veiculados pela televisão. Temos vistos alguns debates e ouvido opiniões sobre este assunto na Imprensa e na TV, quando muitas pessoas defendem com entusiasmo qualquer tipo de programação das emissoras.
Afirmam essas pessoas que não vêem nenhuma inconveniência ou interferência negativa no desenvolvimento emocional e na personalidade dos telespectadores; mesmo em infanto-juvenis! Outros desses defensores, com candura e ingenuidade angelicais, afirmam que “não tem nada a ver” que criancinhas assistam as cenas de nudismo,erotismo e violência que lhes são, habitualmente, apresentadas no vídeo. Resta tecer alguns comentários e análise sobre essas pessoas tão “liberais” para com os nossos filhos. Quase sempre esse polêmico e grave problema é discutido e manipulado entre aqueles que dependem da Televisão para os seus sustentos ou dela necessitam para a sua autopromoção, como os donos de Emissoras de TV e Rádio, diretores e funcionários delas; bem como os apresentadores de programas, autores de novelas, artistas, comerciantes, publicitários, fabricantes de aparelhos de TV; enfim, todos aqueles que estão ligados e dependem dos meios condicionadores de hábitos e costumes.
De modo geral, tais pessoas não têm competência para opinarem sobre patologias mentais ( e, quando têm, são vítimas omissas do poder da Mídia ou interessados em promover suas auto-imagens). Assim sendo, é natural que defendam e se identifiquem com a TV e seus associados. É o mesmo que promover-se um amplo debate sobre a utilidade da fabricação de armas e convidando para a discussão os representantes da indústria bélica e os usuários de armas. Ultimamente (em, 1990), as emissoras descobriram um filão de ouro, que são os programas intitulados de “infantis”.
Eles superlotam os horários das crianças, aproveitando-se da facilidade em condicionar as suas frágeis mentes, a fim de vender os mais variados produtos de alimentos artificiais, até os mais falsos artifícios da Moda. Deterioram a alimentação das crianças e afetam a qualidade de vida delas e de toda a família. Discos, fitas, brinquedos; quase sempre simbolizando violência alienígena; revistinhas, hábitos nocivos importados de países moralmente decadentes, etc. Toda essa quinquilharia inútil e nociva é vendida na esteira do sucesso de tais programas infanto-comerciais, cujos apresentadores não raro, foram, são ou vão ser modelos eróticos de revistas que vão deleitar os irresponsáveis pais dessas crianças que serão precocemente erotizadas por esses modelos de permissividade. Será muito promissora a safra de “ninfetas” que futuramente estarão se prostituíndo e se exibindo nuas, nessas Revistas, Jornais, Vídeos, Filmes e em tantos outros veículos de prostituição e promiscuidade. E os Pais, continuarão a chorar por seus filhos!!!
Muitos outros ainda defendem a TV, por desconhecerem os efeitos, no cérebro, produzidos pela estimulação negativa que recai sobre as pessoas, cujas personalidades encontram-se em formação e,naquelas, que a tem deteriorada. De todos os defensores da Televisão, o que mais surpreende são as opiniões de certos profissionais da área da saúde mental e da educação. Eles deveriam conhecer a trajetória dos estímulos veiculados pelo Vídeo, no cérebro do telespectador. Deveriam conhecer as conseqüências negativas provocadas pelas cenas de violência e erotismo no sistema límbico e hipotálamo-hipofisário, para a produção da mente (mentalidade) infantil. Deveriam saber sobre os famosos experimentos de Albert Bandura e colaboradores, na Universidade de Stanford. Bandura expôs uma turma de crianças do pré-escolar à cenas de agressividade no vídeo, por 30 minutos; ao mesmo tempo que mostrava a outro grupo de crianças, da mesma idade, cenas neutras, sem agressividade.
Após as exposições dos filmes, as crianças que haviam visto as imagens de cenas agressivas, apresentaram comportamentos agressivos e violentos. As outras crianças que tinham visto o filme neutro e sem cenas de agressão; não apresentaram nenhum sinal de agressividade, após o experimento. Albert Bandura tornou-se conhecido no meio acadêmico e educacional, por essa clara e científica demonstração de que grande parte do que uma criança aprende é resultado da observação e imitação do comportamento de outros, de quem toma por modelo, de forma inconsciente. Posteriormente, outros pesquisadores validaram os resultados de Bandura, em demais experimentos similares. Tenho duas explicações para as afirmativas tão ingênuas (e permissivas) que a programação televisiva “não tem nada a ver” com a formação da personalidade: tais pessoas nada sabem de Biologia cerebral (o que é inconcebível na formação do Psicoterapeuta; já que o cérebro é o substrato material da conduta animal) ou elas buscam a autopromoção, desempenhando o papel de “bonzinhos”, ”legais”, ”liberais” e de “não-caretas”, para uma imensa platéia de imaturos e permissivos que esperam ouvir isso mesmo delas.
Seria bom para toda a Sociedade que esses “especialistas liberais” revejam os seus estudos de Neuro e Psicobiologia, a fim de recordarem os ensinamentos ministrados nos seus cursos, sobre a estimulação neuro-sensoriais. As primeiras experiências sensoriais na infância são tão importantes e marcantes que tais impressões são as últimas a sobreviverem quando o cérebro se deteriora na senilidade, nos traumatismos físicos, mentais e quando ocorre a morte. São elas, também, as primeiras a voltarem à recordação, após períodos de amnésia. Comprovam-se, assim, quão fortes e persistentes são as imagens e impressões vivenciadas, presenciadas e gravadas na infância. Finalmente, desejamos alertar os Pais e todos aqueles envolvidos na educação e formação da personalidade humana, sobre os graves problemas psicossomáticos, sociais e econômicos que irão enfrentar, cedo ou tarde, caso continuem permitindo que os seus filhos e educandos continuem se desestruturando com os péssimos exemplos mostrados pela Televisão, Filmes, Vídeos, Revistas, Internet (esta, a pior de todos) e outros veículos que veicularem e divulgarem cenas e ensinamentos desestruturadores da personalidade.
Os pais, educadores, governantes, autoridades e políticos, não devem se deixar levar pelas opiniões de quem não tem competência para discutirem, seriamente, tão grave problema; ou de comerciantes, empresários, industriais e funcionários da Mídia ou que dela dependem para venderem seus produtos ou imagens. Melhor seria que os aparelhos de televisão fossem desligados na maioria de seus programas, dando lugar a um intercâmbio mais salutar entre os membros da Família. Melhor seria que esses meios de comunicação estimulassem os bons costumes, como a honestidade, a moral, a dignidade, o amor entre as pessoas; divulgando novelas e programas educativos com os bons exemplos dos Homens que dignificaram a nossa Espécie, como os heróis, mártires e benfeitores da humanidade; ao invés de exemplificarem e imporem os péssimos exemplos do lixo do comportamento humano que diariamente vemos e que nos faz vítimas indefesas , desses produtores, em massa, de imaturos que martirizam e destroem.
Finalmente, compare o que aqui foi dito e publicado há mais de duas décadas, com o que hoje vivenciamos ! Imagine como será o comportamento da maioria das pessoas, nas próximas décadas, com o acesso ilimitado de todos às mensagens,imagens e modelos expostos na Internet ! Procure, em qualquer Site de “procura”, o que quiser saber sobre: como se prostituir, como se deve matar, como se deve roubar, como se deve corromper,etc. etc.! Neles, encontrará toda espécie de ensinamentos, desde os mais úteis à Sociedade; até os mais aprimorados instrumentos pedagógicos para a prática da promiscuidade física e mental. Pais e Educadores! Querem continuar sofrendo, chorando e se empobrecendo com as mazelas e pragas que os seus filhos estão provocando em si mesmos e nos filhos dos outros pais e na sociedade; continuem a deixá-los expostos ao condicionamento perverso e nocivo dos meios de comunicação; não supervisionando a conduta das suas crianças, não lhes dando bons exemplos de decência, honestidade e cidadania; bem como, permitindo que eles façam o que quiserem, com receios de lhes causarem “traumas”!
Autor: CARLEIAL. Bernardino Mendonça.
Psicólogo-Clínico pela Universidade católica de Minas Gerais
Estudante de Direito da Faculdade de Direito Estácio de Sá, em Belo Horizonte - MG
Escritor e Pesquisador nas áreas da Psicobiologia e do Direito.
Este Texto foi escrito e divulgado em Jornais do Estado de Minas Gerais, principalmente pelo “O Estado de Minas”, no Editorial da Jornalista e editora Anna Marina Siqueira, em agosto de 1990. Também foi divulgado em livro, Anais e citações diversas, inclusive no Exterior.
A sociendade do espetáculo.
Em março de 2004 realizou-se um ciclo de conferências no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Uma temática instigante: "Muito além do espetáculo". Para registrar a influência, toda a reflexão sobre a imagem e o espetáculo é oriunda de um livro essencial: A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, de Guy Debord (Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2000). Participaram intelectuais brasileiros e estrangeiros: Adauto Novaes, Eugênio Bucci, Jorge Coli, Nelson Brissac Peixoto, Evgen Bavcar, Maria Rita Kehl etc. Cada qual em seu campo específico, dissertaram sobre a cultura da imagem e a sociedade do espetáculo e os novos e inquietantes desafios contemporâneos.
Alguns chamam esta contemporaneidade de pós-modernidade, talvez daí derivasse o título do ciclo de conferências (Muito além = pós). Aliás, parece que tudo hoje é pós. Pós-isto, pós-aquilo (neologismos com hífens). O que desperta questionamentos de toda ordem, pois vivemos num tempo complexo, mesclado de espetáculos naturais e artificiais, interdisciplinaridades, influências de todas as partes, e imersos num mundo de culturas híbridas (pensamento complexo e cultura híbrida são termos de Edgard Morin).
Mas esta é uma discussão de grande dimensão. Fica para outra oportunidade. Pois bem, voltando ao ciclo de conferências, lá pelo terceiro/quarto dia, eis o meu espanto: menos de 10% dos participantes (talvez nem isso) conheciam o livro de Guy Debord. Averigüei esta situação sentando em locais diferentes, dia após dia, e perguntando aos participantes se tinham ouvido falar do autor. Um comportamento até certo ponto meio cara-de-pau, mas valeu a amostragem. Observei também que a organização do evento não observou uma demanda básica e potencial em torno do livro, pois havia pessoas de áreas distintas de conhecimento e interessadas no assunto. No fim das contas, somente Eugênio Bucci tangenciou, em premissas básicas e conclusões apressadas, o livro de Debord.
Terminado o ciclo, bateu uma vontade danada de descrever alguns momentos e divulgar este livro que eu considero importante, atual e duma inestimável validade e ajuda nas reflexões deste mundo contemporâneo individualista e globalizado. De tão importante eu o utilizo na confecção de outro livro, que está em curso para a publicação no campo da comunicação. Mas, vamos à resenha, só completada recentemente.
O livro e suas influências
A gênese do pensamento contemporâneo sobre a questão do espetáculo tem suas raízes no pensador situacionista pós-marxista francês Guy Debord (1931-1994) e em seu livro. A primeira parte – A sociedade do espetáculo – foi escrita em 1967. O livro e a Internacional situacionista (com suas derivas e intervenções urbanas, ordenando o cenário material da vida, seu caráter e o papel "público" de romper a identificação psicológica dos indivíduos, instigando-os a agir contra qualquer tipo de opressão do sistema) foram importantes instrumentos de pensamento e ação dos estudantes, na França, em maio de 1968. O caráter contestatório da obra de Debord incita a todos, numa luta acirrada contra a perversão da vida moderna, que prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo. O pensador contemporâneo Jean Baudrillard também sofreu influência das idéias de Debord.
O ponto de partida do livro é uma crítica ferina e radical a todo e qualquer tipo de imagem que leve o homem à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo capitalismo. Para o filósofo, cineasta e ativista francês, a sociedade da época estava contaminada pelas imagens, sombras do que efetivamente existe, onde se torna mais fácil ver e verificar a realidade no reino das imagens, e não no plano da própria realidade. Servindo-se de aforismos, no primeiro deles Debord afirma que "toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação". Ou seja, pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa, os indivíduos em sociedade abdicam da dura realidade dos acontecimentos da vida, e passam a viver num mundo movido pelas aparências e consumo permanente de fatos, notícias, produtos e mercadorias.
A sociedade do espetáculo é o próprio espetáculo, a forma mais perversa de ser da sociedade de consumo. Como bem observa José Arbex Jr. no livro Showrnalismo: a notícia como espetáculo (Editora Casa Amarela, São Paulo, 2001):
"O espetáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’".
Desta maneira, as relações entre as pessoas transformam-se em imagens e espetáculo. "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens", argumenta Debord. O consumo e a imagem ocupam o lugar que antes era do diálogo pessoal através da TV e os outros meios de comunicação de massa, publicidades de automóveis, marcas etc. e produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos. Por exemplo, a questão da droga será tratada na TV (algumas telenovelas brasileiras mais recentes abordaram tal assunto), e não no seio familiar. Ocorre aí uma devastadora inversão da noção de valores. O espetáculo se constitui a realidade e a realidade o espetáculo. Já não se tem um limite definido para as coisas.
Efeito-sanduíche
Com a presença incessante dos meios de comunicação de massa, o homem passa a ser e a viver uma vida sonhada e idealizada, na qual a ficção mistura-se à realidade, e vice-versa, incorporando-se à realidade vivida pelo indivíduo (interessante citar, e tudo leva a crer que, a partir das idéias de Debord, Eugênio Bucci apresenta as cinco leis não escritas – não explicitadas – da televisão brasileira no livro Brasil em tempos de TV, da Boitempo Editorial, 1997, entre elas o efeito-sanduíche realidade-ficção/ficção-realidade, pelo qual os telejornais (reino da realidade) se organizam como melodramas (reino da ficção) e as novelas (reino da ficção) vão se alimentar no reino da realidade. O reino da notícia bebe no da ficção, e vice-versa, produzindo um entendimento parcial, fragmentado, e nunca pleno do mundo dos acontecimentos.
Num desdobramento, este esquema perpassa toda a programação da televisão, principalmente no horário noturno. O esquema é o seguinte: um programa alicerçado no real (noticiário, documentário, grandes reportagens) e em seguida outro no reino da ficção (novelas, filmes etc.), e por aí vai se alternando. Debord, enfaticamente, observa que esta imagem manipulada da realidade pelos meios de comunicação de massa faz com que o reino das emoções (raiva, felicidade etc.), assim como a justiça, a paz e a solidariedade, sejam apresentadas como espetáculo. Os meios de comunicação de massa criam a partir daí uma realidade própria para que a sociedade se solidarize e crie novos critérios de julgamento e justiça conforme seus conceitos manipuladores.
Estas novas tecnologias no campo da informação agem na capacidade de percepção dos indivíduos e dificultam a representação do mundo pelas atuais categorias mentais. A sociedade transforma-se numa sociedade do espetáculo, na qual a contínua reprodução da cultura é feita pela proliferação de imagens e mensagens dos mais variados tipos. A conseqüência é uma vida contemporânea super-exposta e invadida pelas imagens, operacionalizando um novo tipo de experiência humana, caracterizada por um modo de percepção que torna cada vez mais difícil separar-se ficção de realidade.
A mídia, principalmente a televisiva, passa então a atuar de maneira decisiva na definição das agendas e dos temas que norteiam todo o processo cultural e social relevantes. Como observa Debord, "o conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Sua diversidade e contrastes são as aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral. Considerado de acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida – isto é, social – como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como a negação visível da vida; como negação da vida que se tornou visível".
O ambiente é o da manipulação, onde o homem acaba sendo governado por algo que ele próprio criou. Relembrando McLuhan, "os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens". A visão de mundo já é de outra ordem e natureza. Como afirma Debord:
"Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo, como tendência a fazer ver (por diferentes mediações especializadas) o mundo que já não se pode tocar diretamente, serve-se da visão como sendo o sentido privilegiado da pessoa humana – o que em outras épocas fora o tato; o sentido mais abstrato, e mais sujeito à mistificação, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual. Mas o espetáculo não pode ser identificado pelo simples olhar, mesmo que este esteja acoplado à escuta. Ele escapa à atividade do homem, à reconsideração e à correção de sua obra. É o contrário do diálogo. Sempre que haja representação independente, o espetáculo se reconstitui".
Concentrado e difuso
Debord caracteriza o espetáculo de dois tipos: o concentrado e o difuso. Ambos, centrados na noção de unificação feliz e, posteriormente, acompanhado de mal-estar, desolação e pavor. O tipo concentrado é essencialmente burocrático e ditatorial. Uma situação típica do tipo concentrado de espetáculo advém dos antigos regimes comunistas, em que o Estado impunha a identificação popular pelo espetáculo e com isso escondia-se a verdadeira realidade socioeconômica. Outro exemplo: a hegemonia dos atletas alemães orientais e soviéticos nas Olimpíadas das décadas de 1960 e 1970. Com suas conquistas garantiam internamente a imagem de uma suposta supremacia da ordem estabelecida sobre uma outra exterior – o triunfo maquiando os eventuais desgastes do regime em relação a outras realidades no campo de direitos humanos, alimentação e trabalho.
Atualmente, Cuba é um exemplo clássico deste tipo de espetáculo concentrado. Não devemos esquecer do Brasil pós-1964, com slogans e lemas político-propagandísticos como "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "Este é um país que vai pra frente", cantados, reproduzidos nas rádios e TVs, usados pelos militares para consubstanciar e silenciar as atrocidades cometidas e a inoperância, mascarada de milagre econômico, à custa de endividamento externo estrondoso. O espetáculo difuso está presente em regimes mais democráticos, onde a superprodução de mercadorias em marcas variáveis induz e garante uma aparente "poder de escolha", entretanto fazendo crer que os indivíduos vivam num reino falso da "liberdade de escolha".
Posteriormente, em 1988, Guy Debord retoma a discussão em Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Ampliando a temática, reconhece que o domínio do espetáculo é o grande vencedor e integrador de toda a sociedade: tudo o que se apresenta aos cidadãos e consumidores somente pode ser confirmado, cada vez mais, pelas imagens e o marketing, tendo o público de certa forma de confiar naquilo que foi "criado" para ele. Ou seja, o critério da verdade e da validade da realidade é tudo aquilo que foi noticiado. Se a mídia em geral não noticiou e nada foi comentado em público sobre determinado acontecimento, as pessoas tornam-se céticas quanto à veracidade da informação. Por mais que tenham vivenciado determinado acontecimento, fica no ar a pergunta: "Será que isso realmente aconteceu?" Em outras palavras, se o fato não foi noticiado, divulgado, não teve registro imagético, não deve ter acontecido. É a realidade transformada em imagem, o espetáculo, em realidade. É o reino do espetáculo suplantando a realidade. Reiterando, se o fato não apareceu na TV e jornais, não aconteceu.
Como confirma Debord, "no plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir. A partir de então, é evidente que a imagem será a sustentação de tudo, pois dentro de uma imagem é possível justapor sem contradição qualquer coisa. O fluxo de imagem carrega tudo: outra pessoa comanda a seu bel-prazer esse resumo simplificado do mundo sensível, escolhe aonde irá esse fluxo e também o ritmo do que deve aí se manifestar, como perpétua surpresa arbitrária que não deixa nenhum tempo para a reflexão, tudo isso independe do que o espectador possa entender ou pensar".
Total desinformação
Uma conseqüência séria, segundo Debord, é a total desinformação da sociedade. Não a desinformação como negação da realidade, e sim um novo tipo de informação que contém uma certa parte de verdade, o qual será usado de forma manipulatória. "Em suma, a desinformação seria o mau uso da verdade". E, o mundo da desinformação é o espaço onde já não existe mais o tempo necessário para qualquer verificação dos fatos.
Assim, analisa Debord, "ao contrário do que seu conceito espetacular invertido afirma, a prática da desinformação só pode servir o Estado aqui e agora, sob a sua direção direta, ou por iniciativa dos que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; e como seu caráter principal. Ela só é nomeada quando é preciso manter pela intimidação, a passividade. Quando a desinformação é nomeada, ela não existe. Quando existe, não é nomeada".
Esta nova sociedade do espetáculo e desinformação, de acordo com o autor, é o universo, onde tudo é possível. Um grande carnaval caracterizado pelo desaparecimento de critérios de verdade e validade, que antes eram referenciados em atitudes e funções específicas desempenhadas no mundo do trabalho. Neste contexto, por exemplo, um médico pode ser cantor e ator ao mesmo tempo, e aparecer na televisão defendendo o uso de determinado produto, marca ou remédio de ponta, de determinado laboratório, como sendo o mais eficaz contra determinada doença, fratura ou inflamação. Bem como pode aparecer também em programas de auditório e novelas, garantindo e corroborando o status científico, e a noção do bom e do belo, do asséptico e o efeito dourado de bem-estar do produto para a saúde dos consumidores e cidadãos. Este seria um outro novo aspecto que alimenta e afirma que o espetáculo não pode parar, e que todos podem um dia ter a possibilidade, nem que seja em 15 minutos de fama, de se tornarem artistas e aparecer na televisão.
Desta maneira, parte da modernidade e a época atual são a sociedade do espetáculo, do consumo e da fragmentação. E, de acordo com as idéias de Debord, apocalípticas, extremistas, impiedosas e lúcidas em seus julgamentos, esta sociedade é a negação da própria humanidade, que em sua plenitude procura um certo tipo de felicidade em meio ao esfacelamento da capacidade de liberdade de escolha, já totalmente preenchida em seu imaginário pela satisfação garantida, a partir de um real fabricado, que finca e irradia os seus espectros num mundo cada vez mais saturado pelas imagens.
Alguns chamam esta contemporaneidade de pós-modernidade, talvez daí derivasse o título do ciclo de conferências (Muito além = pós). Aliás, parece que tudo hoje é pós. Pós-isto, pós-aquilo (neologismos com hífens). O que desperta questionamentos de toda ordem, pois vivemos num tempo complexo, mesclado de espetáculos naturais e artificiais, interdisciplinaridades, influências de todas as partes, e imersos num mundo de culturas híbridas (pensamento complexo e cultura híbrida são termos de Edgard Morin).
Mas esta é uma discussão de grande dimensão. Fica para outra oportunidade. Pois bem, voltando ao ciclo de conferências, lá pelo terceiro/quarto dia, eis o meu espanto: menos de 10% dos participantes (talvez nem isso) conheciam o livro de Guy Debord. Averigüei esta situação sentando em locais diferentes, dia após dia, e perguntando aos participantes se tinham ouvido falar do autor. Um comportamento até certo ponto meio cara-de-pau, mas valeu a amostragem. Observei também que a organização do evento não observou uma demanda básica e potencial em torno do livro, pois havia pessoas de áreas distintas de conhecimento e interessadas no assunto. No fim das contas, somente Eugênio Bucci tangenciou, em premissas básicas e conclusões apressadas, o livro de Debord.
Terminado o ciclo, bateu uma vontade danada de descrever alguns momentos e divulgar este livro que eu considero importante, atual e duma inestimável validade e ajuda nas reflexões deste mundo contemporâneo individualista e globalizado. De tão importante eu o utilizo na confecção de outro livro, que está em curso para a publicação no campo da comunicação. Mas, vamos à resenha, só completada recentemente.
O livro e suas influências
A gênese do pensamento contemporâneo sobre a questão do espetáculo tem suas raízes no pensador situacionista pós-marxista francês Guy Debord (1931-1994) e em seu livro. A primeira parte – A sociedade do espetáculo – foi escrita em 1967. O livro e a Internacional situacionista (com suas derivas e intervenções urbanas, ordenando o cenário material da vida, seu caráter e o papel "público" de romper a identificação psicológica dos indivíduos, instigando-os a agir contra qualquer tipo de opressão do sistema) foram importantes instrumentos de pensamento e ação dos estudantes, na França, em maio de 1968. O caráter contestatório da obra de Debord incita a todos, numa luta acirrada contra a perversão da vida moderna, que prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo. O pensador contemporâneo Jean Baudrillard também sofreu influência das idéias de Debord.
O ponto de partida do livro é uma crítica ferina e radical a todo e qualquer tipo de imagem que leve o homem à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo capitalismo. Para o filósofo, cineasta e ativista francês, a sociedade da época estava contaminada pelas imagens, sombras do que efetivamente existe, onde se torna mais fácil ver e verificar a realidade no reino das imagens, e não no plano da própria realidade. Servindo-se de aforismos, no primeiro deles Debord afirma que "toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação". Ou seja, pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa, os indivíduos em sociedade abdicam da dura realidade dos acontecimentos da vida, e passam a viver num mundo movido pelas aparências e consumo permanente de fatos, notícias, produtos e mercadorias.
A sociedade do espetáculo é o próprio espetáculo, a forma mais perversa de ser da sociedade de consumo. Como bem observa José Arbex Jr. no livro Showrnalismo: a notícia como espetáculo (Editora Casa Amarela, São Paulo, 2001):
"O espetáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’".
Desta maneira, as relações entre as pessoas transformam-se em imagens e espetáculo. "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens", argumenta Debord. O consumo e a imagem ocupam o lugar que antes era do diálogo pessoal através da TV e os outros meios de comunicação de massa, publicidades de automóveis, marcas etc. e produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos. Por exemplo, a questão da droga será tratada na TV (algumas telenovelas brasileiras mais recentes abordaram tal assunto), e não no seio familiar. Ocorre aí uma devastadora inversão da noção de valores. O espetáculo se constitui a realidade e a realidade o espetáculo. Já não se tem um limite definido para as coisas.
Efeito-sanduíche
Com a presença incessante dos meios de comunicação de massa, o homem passa a ser e a viver uma vida sonhada e idealizada, na qual a ficção mistura-se à realidade, e vice-versa, incorporando-se à realidade vivida pelo indivíduo (interessante citar, e tudo leva a crer que, a partir das idéias de Debord, Eugênio Bucci apresenta as cinco leis não escritas – não explicitadas – da televisão brasileira no livro Brasil em tempos de TV, da Boitempo Editorial, 1997, entre elas o efeito-sanduíche realidade-ficção/ficção-realidade, pelo qual os telejornais (reino da realidade) se organizam como melodramas (reino da ficção) e as novelas (reino da ficção) vão se alimentar no reino da realidade. O reino da notícia bebe no da ficção, e vice-versa, produzindo um entendimento parcial, fragmentado, e nunca pleno do mundo dos acontecimentos.
Num desdobramento, este esquema perpassa toda a programação da televisão, principalmente no horário noturno. O esquema é o seguinte: um programa alicerçado no real (noticiário, documentário, grandes reportagens) e em seguida outro no reino da ficção (novelas, filmes etc.), e por aí vai se alternando. Debord, enfaticamente, observa que esta imagem manipulada da realidade pelos meios de comunicação de massa faz com que o reino das emoções (raiva, felicidade etc.), assim como a justiça, a paz e a solidariedade, sejam apresentadas como espetáculo. Os meios de comunicação de massa criam a partir daí uma realidade própria para que a sociedade se solidarize e crie novos critérios de julgamento e justiça conforme seus conceitos manipuladores.
Estas novas tecnologias no campo da informação agem na capacidade de percepção dos indivíduos e dificultam a representação do mundo pelas atuais categorias mentais. A sociedade transforma-se numa sociedade do espetáculo, na qual a contínua reprodução da cultura é feita pela proliferação de imagens e mensagens dos mais variados tipos. A conseqüência é uma vida contemporânea super-exposta e invadida pelas imagens, operacionalizando um novo tipo de experiência humana, caracterizada por um modo de percepção que torna cada vez mais difícil separar-se ficção de realidade.
A mídia, principalmente a televisiva, passa então a atuar de maneira decisiva na definição das agendas e dos temas que norteiam todo o processo cultural e social relevantes. Como observa Debord, "o conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Sua diversidade e contrastes são as aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral. Considerado de acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida – isto é, social – como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como a negação visível da vida; como negação da vida que se tornou visível".
O ambiente é o da manipulação, onde o homem acaba sendo governado por algo que ele próprio criou. Relembrando McLuhan, "os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens". A visão de mundo já é de outra ordem e natureza. Como afirma Debord:
"Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo, como tendência a fazer ver (por diferentes mediações especializadas) o mundo que já não se pode tocar diretamente, serve-se da visão como sendo o sentido privilegiado da pessoa humana – o que em outras épocas fora o tato; o sentido mais abstrato, e mais sujeito à mistificação, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual. Mas o espetáculo não pode ser identificado pelo simples olhar, mesmo que este esteja acoplado à escuta. Ele escapa à atividade do homem, à reconsideração e à correção de sua obra. É o contrário do diálogo. Sempre que haja representação independente, o espetáculo se reconstitui".
Concentrado e difuso
Debord caracteriza o espetáculo de dois tipos: o concentrado e o difuso. Ambos, centrados na noção de unificação feliz e, posteriormente, acompanhado de mal-estar, desolação e pavor. O tipo concentrado é essencialmente burocrático e ditatorial. Uma situação típica do tipo concentrado de espetáculo advém dos antigos regimes comunistas, em que o Estado impunha a identificação popular pelo espetáculo e com isso escondia-se a verdadeira realidade socioeconômica. Outro exemplo: a hegemonia dos atletas alemães orientais e soviéticos nas Olimpíadas das décadas de 1960 e 1970. Com suas conquistas garantiam internamente a imagem de uma suposta supremacia da ordem estabelecida sobre uma outra exterior – o triunfo maquiando os eventuais desgastes do regime em relação a outras realidades no campo de direitos humanos, alimentação e trabalho.
Atualmente, Cuba é um exemplo clássico deste tipo de espetáculo concentrado. Não devemos esquecer do Brasil pós-1964, com slogans e lemas político-propagandísticos como "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "Este é um país que vai pra frente", cantados, reproduzidos nas rádios e TVs, usados pelos militares para consubstanciar e silenciar as atrocidades cometidas e a inoperância, mascarada de milagre econômico, à custa de endividamento externo estrondoso. O espetáculo difuso está presente em regimes mais democráticos, onde a superprodução de mercadorias em marcas variáveis induz e garante uma aparente "poder de escolha", entretanto fazendo crer que os indivíduos vivam num reino falso da "liberdade de escolha".
Posteriormente, em 1988, Guy Debord retoma a discussão em Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Ampliando a temática, reconhece que o domínio do espetáculo é o grande vencedor e integrador de toda a sociedade: tudo o que se apresenta aos cidadãos e consumidores somente pode ser confirmado, cada vez mais, pelas imagens e o marketing, tendo o público de certa forma de confiar naquilo que foi "criado" para ele. Ou seja, o critério da verdade e da validade da realidade é tudo aquilo que foi noticiado. Se a mídia em geral não noticiou e nada foi comentado em público sobre determinado acontecimento, as pessoas tornam-se céticas quanto à veracidade da informação. Por mais que tenham vivenciado determinado acontecimento, fica no ar a pergunta: "Será que isso realmente aconteceu?" Em outras palavras, se o fato não foi noticiado, divulgado, não teve registro imagético, não deve ter acontecido. É a realidade transformada em imagem, o espetáculo, em realidade. É o reino do espetáculo suplantando a realidade. Reiterando, se o fato não apareceu na TV e jornais, não aconteceu.
Como confirma Debord, "no plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir. A partir de então, é evidente que a imagem será a sustentação de tudo, pois dentro de uma imagem é possível justapor sem contradição qualquer coisa. O fluxo de imagem carrega tudo: outra pessoa comanda a seu bel-prazer esse resumo simplificado do mundo sensível, escolhe aonde irá esse fluxo e também o ritmo do que deve aí se manifestar, como perpétua surpresa arbitrária que não deixa nenhum tempo para a reflexão, tudo isso independe do que o espectador possa entender ou pensar".
Total desinformação
Uma conseqüência séria, segundo Debord, é a total desinformação da sociedade. Não a desinformação como negação da realidade, e sim um novo tipo de informação que contém uma certa parte de verdade, o qual será usado de forma manipulatória. "Em suma, a desinformação seria o mau uso da verdade". E, o mundo da desinformação é o espaço onde já não existe mais o tempo necessário para qualquer verificação dos fatos.
Assim, analisa Debord, "ao contrário do que seu conceito espetacular invertido afirma, a prática da desinformação só pode servir o Estado aqui e agora, sob a sua direção direta, ou por iniciativa dos que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; e como seu caráter principal. Ela só é nomeada quando é preciso manter pela intimidação, a passividade. Quando a desinformação é nomeada, ela não existe. Quando existe, não é nomeada".
Esta nova sociedade do espetáculo e desinformação, de acordo com o autor, é o universo, onde tudo é possível. Um grande carnaval caracterizado pelo desaparecimento de critérios de verdade e validade, que antes eram referenciados em atitudes e funções específicas desempenhadas no mundo do trabalho. Neste contexto, por exemplo, um médico pode ser cantor e ator ao mesmo tempo, e aparecer na televisão defendendo o uso de determinado produto, marca ou remédio de ponta, de determinado laboratório, como sendo o mais eficaz contra determinada doença, fratura ou inflamação. Bem como pode aparecer também em programas de auditório e novelas, garantindo e corroborando o status científico, e a noção do bom e do belo, do asséptico e o efeito dourado de bem-estar do produto para a saúde dos consumidores e cidadãos. Este seria um outro novo aspecto que alimenta e afirma que o espetáculo não pode parar, e que todos podem um dia ter a possibilidade, nem que seja em 15 minutos de fama, de se tornarem artistas e aparecer na televisão.
Desta maneira, parte da modernidade e a época atual são a sociedade do espetáculo, do consumo e da fragmentação. E, de acordo com as idéias de Debord, apocalípticas, extremistas, impiedosas e lúcidas em seus julgamentos, esta sociedade é a negação da própria humanidade, que em sua plenitude procura um certo tipo de felicidade em meio ao esfacelamento da capacidade de liberdade de escolha, já totalmente preenchida em seu imaginário pela satisfação garantida, a partir de um real fabricado, que finca e irradia os seus espectros num mundo cada vez mais saturado pelas imagens.
A beleza.
Por Pierre de Craon Lejeune
INTRODUÇÃO
O conceito de belo é sem dúvida, de todos os conceitos que interessam o homem, o mais interessante e o mais fecundo. Um grande número de pessoas é incapaz de se dedicar ao estudo e ao conhecimento de grandes verdades especulativas, por meio de observações longas e que exigem tempo, paciência e, muitas vezes, grande capacidade de abstração. Mas até as inteligências mais simples são capazes de ver que algo é belo e de se alegrarem com isso.
Admiravelmente, e de modo quase paradoxal, o conceito de belo possui uma ligação estreita com conceitos bem altos, a saber: de verdade, de bem, de ordem, de harmonia, de perfeição.
Todas as épocas sempre se interessaram pela beleza e nossa época não foge deste interesse.
De fato, o mundo moderno é obcecado pela beleza. Todos nós somos quotidianamente atacados por uma avalanche de apelos que buscam nos convencer de que a maior preocupação dos homens deve ser a saúde e a estética.
Contraditoriamente, nunca se defendeu tanto a ruptura das regras estéticas como na arte moderna. Octavio Paz, analisando a modernidade e a arte moderna, afirma “que a modernidade é uma espécie de autodestruição criadora” (Octávio Paz, Los hijos del limo, Tajamar Editores, Santiago, 2008, pág. 13). “Apaixonada por si mesma e sempre em guerra consigo mesma, não afirma nada permanente nem se fundamenta em qualquer princípio: a negação de todos os princípios, a mudança perpétua, é o seu princípio. (…) Nossa época exaltou a juventude e seus valores com tal frenesi que fez deste culto, se não uma religião, uma superstição; entretanto, nunca se envelheceu tanto e tão rápido como agora. Nossas coleções de arte, nossas antologias de poesia e nossas bibliotecas estão cheias de estilos, movimentos, quadros, esculturas, novelas e poemas prematuramente envelhecidos” (Ibidem, págs. 15-16).
Bem diferentes eram os princípios que regiam o pensamento medieval sobre o mundo e a ordem que existe nele, sobre a beleza e sobre o modo de agir das criaturas.
A Idade Média recebeu da Antiguidade sua problemática em matéria de estética. Entretanto, ela lhe deu uma amplitude nova, integrando aos bons princípios que a filosofia antiga possuía uma visão do homem, do mundo e de Deus, própria da religião Católica. Assim, a Igreja levou a especulação estética a um nível de originalidade incontestável.
A questão do belo, assim como da verdade e do bem, encontra nos princípios de São Tomás uma resposta muito sólida e de grande rigor científico.
A finalidade deste nosso trabalho – que de modo algum se pretende exaustivo e será publicado pouco a pouco, por partes – é de estudar aqueles princípios ensinados pela Igreja e pela filosofia tomista, que permitem compreender melhor o que é a beleza e de vê-la melhor, não somente no conjunto dos seres irracionais, mas também no homem, na sua vida moral e na sua alma e, finalmente, em Deus.
“É preciso que confessemos que Deus é a própria vida em plenitude, que tudo percebe e entende; que não pode morrer, corromper-se ou mudar-se; que não é dotado de corpo, mas é espírito, sumamente poderoso, justo, belo, ótimo e o mais feliz entre todos os espíritos” (Santo Agostinho, De Trinitate, X, 4, 6).
“Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!” (Santo Agostinho, Confissões, X, 7, 38).
Expondo os princípios que se relacionam com a beleza e com a arte, bem como as relações que existem entre a arte e a moral e de que modo nós podemos atribuir beleza aos atos humanos, esperamos tornar mais clara para os leitores a sabedoria com que Deus criou todas as coisas.
Só amamos aquilo que conhecemos e, quanto mais conhecemos a criação, mais podemos conhecer e amar Aquele que a criou.
“A ciência deve ser empregada como se fosse certo andaime pelo qual se vai subindo a estrutura da caridade, que permanece para sempre, mesmo depois da destruição da ciência. Se ela é usada com um fim de caridade, é altamente útil; utilizada por si mesma sem esta finalidade, não somente é supérflua, mas também certamente perniciosa” (Santo Agostinho, Epist. LV, c. 21, 39).
A ORDEM DO MUNDO E A BELEZA QUE DELA DECORRE
Existem duas perfeições que, nos seres, provêm das relações que existem entre eles: são a ordem e a beleza.
1. A ordem
A ordem é definida como a disposição adequada, conveniente, de vários seres unidos em direção a um fim comum.
Assim, para haver ordem é necessário haver três coisas:
1º. Uma pluralidade de seres, que é a matéria da ordem.
Não é possível existir ordem quando existe somente um ser. Para haver ordem é preciso haver vários seres que possam ser organizados entre si.
2º. Uma disposição adequada, conveniente, o que é a forma da ordem.
Essa organização não pode ser qualquer uma, mas deve estar de acordo com as características de cada ser, com as condições de cada um. Em uma escola, por exemplo, as coisas estão bem dispostas quando os professores têm o conhecimento necessário para ensinar os alunos, possuem uma distribuição de aulas a serem dadas conforme a possibilidade que têm, os alunos comportam-se adequadamente, respeitam os professores e funcionários, não há sujeira no chão, a biblioteca possui os livros necessários ao estudo dos alunos, os alunos são punidos quando agem mal e recompensados quando agem bem, etc. No corpo há boa disposição das partes quando o coração envia sangue suficiente para os membros e órgãos, o cérebro comanda os movimentos sem impedimento, o sistema digestivo recebe a quantidade de alimento necessária ao organismo e o digere bem para ser distribuído no corpo, os rins filtram e o fígado metaboliza as substâncias tóxicas, etc. Quando existe uma boa disposição das partes, então todos reconhecem que existe ordem. Quando essa boa disposição está ausente, então dizemos que existe confusão.
3º. Um fim comum, que é o porquê das coisas serem dispostas de certo modo, e a norma segundo a qual a ordem existente é julgada e avaliada.
No corpo humano, os órgãos e membros têm uma disposição particular com a finalidade de preservar a vida do indivíduo. A ordem de um escritório visa à boa execução dos trabalhos da empresa, a sua eficiência nos negócios. No exército, os soldados são organizados de um modo próprio para vencer a guerra. Se essa finalidade é alcançada, então é porque a ordem foi bem determinada. O fim é, então, usado também como norma, como regra para avaliar se as partes de um todo foram bem ordenadas.
A ordem exige, então, uma boa disposição das partes para alcançar um fim comum a elas. Por isso somos obrigados a concluir que somente um ser inteligente pode ordenar algo. Quem não atribuísse uma causa inteligente a uma obra ordenada seria considerado um insano. Ninguém pode dizer que uma casa fora construída pelo acaso e não por um arquiteto. Um ser que coloca ordem nas coisas obrigatoriamente deve conhecer as relações que existem entre elas e dispô-las umas em relação às outras de um modo adequado para conseguir o fim desejado. Conhecer as relações entre as partes exige compreender a natureza delas, ver as influências que umas podem ter sobre as outras, saber distinguir nelas o que é causa e o que é ocasião, etc. O conhecimento da natureza das partes de um todo, o que elas são em si, das influências que podem existir de umas sobre as outras e da conveniência delas para alcançar um fim, só pode ser feito por um ser inteligente.
Na natureza encontramos muitos seres que, sem terem inteligência, realizam obras de grande ordem, que nos causam enorme admiração. Vemos aranhas que tecem teias bem eficazes para caçar insetos, peixes que lançam água pela boca para derrubar besouros que estão sobre as folhagens das árvores e comê-los quando caem no rio, lobos que fazem armadilhas em conjunto para caçar, mesmo árvores que lançam mão de métodos admiráveis para economizar água nos períodos de seca e cristais magníficos que se formam após fenômenos geológicos.
Mas esta ordem que brilha nas obras realizadas pelos seres sem inteligência deve ser referida àquele que criou todos eles, Deus, e que lhes deu um ser capaz de agir com ordem. Os seres inteligentes, Deus inclusive e com mais forte razão, podem realizar obras ordenadas não somente por si mesmos, mas também por meio de outros seres, na medida em que os dirige e os dispõe à realização de tais obras. Sem qualquer estudo prévio, os animais fazem coisas extraordinariamente inteligentes, mas sem o saber.
As abelhas, por exemplo, fazem suas colmeias com alvéolos hexagonais onde a parede de um alvéolo serve para outro alvéolo. Não há entre os alvéolos espaço perdido e a forma hexagonal é mais econômica do que se elas usassem alvéolos em forma de prisma triangular ou quadrangular. Para fechar os alvéolos elas fazem fechamentos em forma de losango. Quando o físico René-Antoine Feichant de Reaumur (1683-1757) notou que a angulação de fechamento dos alvéolos era constante, não variava, ficou intrigado. Mandou buscar alvéolos na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra, no Canadá, e até na Guiana. Todos apresentavam o losango de fechamento dos alvéolos com o mesmo ângulo. O astrônomo francês Jean-Dominique Maraldi (1709-1788) mediu com maior precisão os ângulos de fechamento dos alvéolos e viu que o ângulo menor tinha 70º 32’ e o maior tinha 109º 28’, o que tornava o alvéolo mais econômico: máximo de volume para um mínimo de material usado na sua construção.
É óbvio que não foram as abelhas que descobriram, por conta própria, esta alta geometria. Elas não conhecem até hoje, que se saiba, como usar os recursos do Cálculo Diferencial…
Intrigantes, estas geômetras irracionais! O curso de Matemática, da escola primária até o fim do ensino médio, feito durante 11 anos, não fornece a um jovem, aplicado e inteligente, recursos suficientes para que ele possa resolver o problema dos alvéolos das abelhas, que elas resolvem tão “espontaneamente” (Cf. Malba Tahan, As Maravilhas da Matemática, Edições Bloch, Rio de Janeiro, 1972, págs. 105-112).
Isso nos leva a fazer uma segunda observação. A ordem, enquanto tal, só pode ser conhecida pela inteligência. Somente a inteligência percebe as relações que existem entre as partes ordenadas de um todo e o fim ao qual elas estão dirigidas. Assim, para reconhecer se algo é ordenado, devemos identificar o fim desejado pelo autor e a relação que determina a disposição das partes. O físico René-Antoine Feichant de Reaumur notou as relações matemáticas, geométricas, que existiam entre os alvéolos das colmeias com um fim preciso: obter o máximo de volume para um mínimo de material usado na sua construção. E ele reconheceu esta ordenação porque tinha inteligência. As abelhas constroem seus alvéolos com esta ordem admirável, mas são incapazes de saber que o fazem, porque não têm inteligência. Mas mesmo sem inteligência, constroem suas colmeias com precisão matemática, seja na Suíça, seja na Guiana. Bem intrigantes estas geômetras irracionais!
Havendo falta desta consideração da inteligência, mesmo as coisas mais bem ordenadas podem parecer aleatórias, como vemos afirmarem os ateus, que se lançam contra a ordem existente no mundo. “O injusto disse em si mesmo que queria pecar; não há temor de Deus ante seus olhos. (…) As palavras de sua boca são iniqüidade e engano; não quis instruir-se para fazer o bem” (Salmo 35, 2.4). “Quão magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão insondável é a profundidade dos teus desígnios! O homem insensato não conhecerá, e o néscio não compreenderá” (Salmo 91, 6-7).
Ao compararmos o comportamento dos ateus e das abelhas, não há dúvida: a verdade está com as abelhas!
2. A beleza
Explicar o belo é uma tarefa difícil. Platão já havia escrito na República: “O provérbio tem razão, Sócrates, o belo é difícil” (República, l. IV).
A causa desta dificuldade é múltipla. Como dissemos, o conceito de belo está intimamente ligado, e como que misturado, a vários outros grandes conceitos, cuja análise é delicada. Além disso, ele é muito complexo, e os inúmeros elementos que ele engloba exigem, para serem bem distinguidos e definidos, muito cuidado e precisão.
Mas é justamente pelo fato da beleza ser objetiva, de ter uma definição imutável, que nós podemos estudá-la usando os instrumentos que a Filosofia tomista nos dá.
Não se venha dizer que a Idade Média permaneceu fria a tudo aquilo que diz respeito à beleza, e que a lógica austera da filosofia tomista conseguiu fechar todos os horizontes ao belo.
A época em que São Tomás de Aquino viveu foi aquela que nos deu as mais magníficas catedrais, com vitrais que enchiam as igrejas de luz. Os novos modos de construção permitiam abrir imensas janelas decoradas, que tornavam as grandes naves das igrejas mais luminosas, brilhando com belos raios coloridos quando o sol incidia nelas. E não somente as catedrais chamam nossa atenção até hoje, e movem milhões de turistas todos os anos a visitá-las, como também os castelos, palácios, os edifícios civis, as pinturas, iluminuras, esculturas e objetos de uso quotidiano, todos datando da “Idade das Trevas”…
É verdade que São Tomás de Aquino não tratou da beleza com a mesma profundidade e com o mesmo desenvolvimento que ele deu à Metafísica, à Lógica, à Teologia. Mas não deixamos de encontrar em seus escritos várias observações sobre a beleza e os elementos que a constituem.
Existem noções metafísicas tão simples e universais que elas não podem ser definidas. Podemos descrevê-las, mas como são coisas que ultrapassam qualquer categoria, não podem ser colocadas em uma definição. Tais são as definições, por exemplo, de ser, ato, potência, verdadeiro, uno, bem, etc.
Mas a beleza é algo à parte. Ela se compõe de vários elementos que podem ser analisados.
Uma das melhores definições do belo dadas na Idade Média é a de Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, definição que permanecerá célebre e exemplar: “A natureza do belo reside universalmente na viva luz que a forma difunde sobre as partes bem proporcionadas da matéria, ou sobre as diversas potencialidades, ou sobre as diversas operações materiais” (Santo Alberto Magno, Super Dionysium de divinis nominibus, IV, 72; in Opera Omnia, XXXVII/1, p. 182). Ou, de modo mais breve: A beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria.
Esta definição exprime tão bem o que é a beleza, que ela merece ser explicada em detalhes.
a) Matéria e forma
A filosofia de Aristóteles reconhece nos seres corpóreos dois princípios substanciais, duas causas intrínsecas: matéria e forma, causa material e causa formal. A filosofia clássica elaborou e empregou vastamente estas duas noções, aprofundando-as e tornando-as mais sutis.
Utilizemos uma estátua como comparação para compreender melhor estes dois princípios constitutivos dos seres materiais. Este exemplo da estátua é o mais conhecido quando se trata de explicá-los, porque é um dos mais simples.
Uma estátua depende, para existir, da matéria com que é feita e da forma (a qual, neste exemplo, é mera figura exterior) que faz com que seja o que é. Sem mármore não existe estátua, muito menos sem figura, sem seu desenho exterior.
Uma estátua de Júpiter pode ser feita de mármore, de bronze, de madeira; e de um mesmo bloco de mármore posso fazer um Júpiter, um Apolo, uma Diana. De onde se vê que a matéria é indiferente à forma, e a forma é indiferente à matéria. São, pois, coisas distintas, princípios distintos do ser. Vê-se, também, que a forma é o que diferencia, o que determina: uma estátua de Júpiter, não de Diana. Também se vê que a matéria da estátua não pode existir sem a forma. Uma estatua de Apolo é mármore (ou bronze, madeira, gesso…) com forma de Apolo. O mármore sozinho não constitui estátua alguma, e não há figura de Apolo que não esteja posta em algum mármore (ou madeira, gesso…). A existência da estátua depende da matéria e da forma. Ambas, então, constituem a estátua, são causas que constituem a estátua , causas intrínsecas dela.
Mas temos que refinar o conceito de forma usado nesta comparação da estátua. Como diz um ditado latino, toda comparação é imperfeita.
A forma é mais importante do que a matéria. A matéria tem menos importância em relação à forma. Vale a pena observar que a língua inglesa inverteu o sentido destas palavras por uma curiosa mudança semântica, que revela o caráter inglês: “this is material to the fact” significa que algo é realmente importante; “this is only a formality” significa que algo não tem importância.
Mas suponhamos que a estátua em questão fosse de ouro. Ela valeria muito dinheiro, mesmo sendo mal esculpida. O mesmo vale para o caso em que tivéssemos uma estátua em gesso bem esculpida e outra em mármore esculpida com um pouco menos de técnica: ainda assim a estátua em mármore valeria mais em relação à estátua de gesso. Por que, se a matéria é menos importante que a forma? Isso parece ir contra o que acabamos de dizer.
Porque o mármore ou o ouro têm seu próprio ser físico antes de se ser estátua, mas a figura, a aparência de Apolo ou Júpiter, não. O mármore é substância e sua figura é um acidente, e “a substância prima sobre o acidente”.
Mas o mármore, para ser substância “mármore” precisa de algo que o faça mármore e não outra coisa. Este algo chama-se “forma substancial”. Mármore não é madeira ou ar, e para explicar essa diferença é necessário recorrer não a uma matéria determinada (mármore) e a uma forma acidental, uma figura exterior (de Apolo, Júpiter ou Diana), mas ao que se denomina matéria-prima (ou matéria absolutamente indeterminada) e forma substancial (princípio primeiro pelo qual a matéria se torna tal matéria). “Esses princípios intrínsecos são, na plena acepção da palavra, princípios, isto é, aquilo de que procede o corpo, real e primeiramente, e que não supõe nada anterior a ele. São, portanto, realidades metafísicas” (Régis Jolivet, Tratado de Filosofia, tomo I, Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1969, p. 335).
A matéria é aquilo que Platão denominava uma espécie de não-ser, um puro “com o que” as coisas são feitas e que, por si mesmo, não é nada de feito, um princípio absolutamente indeterminado, incapaz de existir por si mesmo, mas capaz de existir por outra coisa, a forma.
A forma é um princípio ativo, que determina essa matéria puramente passiva, mais ou menos como a forma impressa pelo escultor determina a argila. A forma, unida à matéria, constitui com ela uma única coisa feita e existente, uma única e só substância corpórea, à qual permite não só ser isto ou aquilo (ter tal natureza específica) mas também existir, mais ou menos como a forma impressa pelo escultor permite à estátua ser o que é.
Por causa desta analogia com a forma exterior de uma estátua (“forma acidental”), Aristóteles chamou de forma (“forma substancial”), num sentido inteiramente especial e técnico, este princípio interior de que tratamos, e que determina a substância corpórea no seu próprio ser.
Em resumo, a causa material é aquilo de que as coisas são feitas, enquanto a causa formal é aquilo que faz da coisa o que ela é.
A doutrina de Aristóteles, que faz de cada ser corpóreo um composto de matéria (hyle) e de forma (morphè), foi denominada hilemorfismo.
Esta doutrina salva a realidade material das coisas, bem como a existência de uma distinção de natureza ou de essência entre os corpos que consideramos como de espécies diferentes; mostra que nos corpos sem vida e nos seres vivos irracionais existe a presença de um princípio substancial imaterial, mas que difere dos espíritos propriamente ditos, porque é incapaz de existir sem a matéria; permite compreender a união, no ser humano, da matéria e de uma alma espiritual, que é a forma do corpo humano, mas que difere das outras formas substanciais pelo fato de existir sem a matéria.
É a forma imaterial que faz com que as coisas sejam inteligíveis.
Nossa inteligência é imaterial.
O mundo visível é material.
Se este mundo visível fosse constituído unicamente por matéria, como querem os materialistas, seria impossível conhecê-lo com nossa inteligência imaterial.
Há algo imaterial nas coisas – a forma substancial delas – que se une à matéria para constituir cada ser individual e que permite que possam ser conhecidos por nossa inteligência imaterial.
Na filosofia de Aristóteles e de Santo Tomás, toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares, uma passiva e, em si mesma, absolutamente indeterminada (matéria), outra ativa e determinante (forma) (Cf. Jacques Maritain, Introdução geral à Filosofia, Agir Editora, 15ª. edição, 1987, p. 110).
A matéria não existe por si mesma, mas por sua forma substancial, e a forma existe na matéria. De modo que o que existe real e verdadeiramente é o composto de dois princípios, um ser material individual, seja ele qual for.
Aristóteles firma-se nestas noções inteligíveis, mas não imagináveis, esclarecendo que matéria e forma são dois princípios essencialmente incompletos, feitos um para o outro, e que se unem diretamente para constituir os corpos individuais. A matéria servirá, também, para distinguir os múltiplos indivíduos da mesma espécie: ela é princípio de individuação.
A matéria-prima dos corpos é impossível de ser representada por nossa imaginação. Tudo o que temos em nossa imaginação são imagens de seres diversos que conhecemos, todos constituídos por matéria já unida a uma forma. Mas a inteligência compreende o que ela significa: o que existe de indeterminado, de passivo nos corpos.
“Todas as dificuldades com que se debateu a especulação grega até Aristóteles provinham sobretudo da incapacidade em que se achavam os pensadores (…) de se libertar das representações imaginativas, para conceber apenas na inteligência realidades que, não sendo seres materiais, mas somente princípios de ser, só podem ser acessíveis à razão metafísica [isto é, não podem ser imaginadas, representadas na imaginação, mas concebidas somente na inteligência]” (Régis Jolivet, Tratado de Filosofia, tomo I, Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1969, p. 334).
Fazendo uso das noções aristotélicas de matéria e forma ao definir a beleza, Santo Alberto Magno deu uma base filosófica sólida, um fundamento metafísico a ela, afirmando que a beleza pertence a tudo o que existe. A beleza é algo que está realmente nas coisas, e não é o fruto passageiro de uma impressão subjetiva, de um entusiasmo lírico.
b) Resplendor da forma
Os escolásticos, seguindo os antigos, viam o resplendor como uma característica essencial da beleza:
“A clareza pertence à essência da beleza” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in lib. de Divin. Nomin., lect. VI).
“A luz embeleza, porque sem luz todas as coisas são feias” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in Psalm., Ps. XXV, 5).
“A beleza [...] consiste numa certa claridade e na devida proporção” (Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica II-II, q. 180, a. 2, ad 3).
- Nossa inteligência conhece a verdade das coisas. Somente um ser inteligente consegue ver a ordem que existe num conjunto de outros seres, como explicamos acima. Os seres da criação podem ser conhecidos pela inteligência por causa da forma substancial imaterial que os constitui, sendo o princípio próprio de inteligibilidade de algo. As criaturas podem ser conhecidas pela inteligência do homem porque cada uma possui sua forma substancial própria.
Toda forma é um vestígio, um raio de luz que Deus pôs em cada ser criado, pela qual nossa inteligência pode ser iluminada.
“Toda forma, pela qual cada coisa tem o ser, é uma certa participação da claridade divina. (…) Cada realidade é bela e boa de acordo com sua própria forma” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in lib. de Divin. Nomin., c. 4, lect. V).
Deus projeta um brilho que é a causa da beleza nas coisas. Esta luz e esta clareza, que provêm de Deus, contêm e se tornam a essência e a beleza das criaturas. É por isso que as criaturas são belas, pela essência radiante que têm, e que é uma participação da clareza divina. Elas mostram uma consonância com seu fim, que é Deus, uma consonância na composição que têm e, em terceiro lugar, uma consonância nas relações que têm com as outras criaturas.
O ser das coisas é uma certa luz (Cf. Santo Tomás de Aquino, Comment. in Liber de causis, prop. 6, lect. 6).
Quando conhecemos bem alguma coisa, dizemos que ela está clara para nós.
Ora, se está claro é porque tem luz.
Assim, o resplendor de que se trata aqui é um resplendor de inteligibilidade: esplendor da verdade, diziam os platônicos; esplendor da ordem, dizia Santo Agostinho (De vera relig., cap. 41); esplendor da forma, dizia Santo Tomás de Aquino na sua linguagem precisa de filósofo; resplendor da forma, dizia Santo Alberto Magno nesta definição que analisamos.
A clareza é a propriedade que um corpo possui de se mostrar de modo manifesto. É a facilidade de algo ser percebido pelos sentidos, o fato de não se esconder, mas de se manifestar. Um ser belo é limpo, evidente, claro para a vista e o ouvido.
Todo ser é a realização de uma essência. Aquilo que aprendemos pelos nossos conceitos sob um estado de universalidade existe realmente, mas nas próprias coisas, sob um estado de individualidade, não sob um estado de universalidade. Assim, por exemplo, há na realidade uma natureza humana (animal racional), que se encontra tanto em Pedro, como em Paulo e João etc., que não existe em si mesma ou em estado separado, mas somente nestes sujeitos individuais e identificada com cada um deles.
Quando um ser se mostra tal como ele é, tal como Deus o fez, então a sua forma própria resplandece nele. Em todo ser que existe é possível ver o resplendor da forma que dispôs a matéria seguindo as leis da proporção.
Deus distribuiu suas perfeições em cada ser da criação, em cada indivíduo do gênero humano. Cada pessoa é única, com qualidades próprias que Deus distribuiu para que brilhem para os outros: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (São Mateus 5, 16).
Quando alguém se mostra realmente como um homem, como um animal racional, que deseja naturalmente conhecer a causa das coisas e que tem um senso natural de admiração quando as conhece, que coloca questões e busca respostas, quando a sua racionalidade se manifesta exteriormente por um comportamento inteligente, pelo uso de vestes, por exemplo, que tornam mais evidentes aquelas coisas que o homens têm como próprias e que os diferenciam dos animais, e não de roupas que exaltam sua animalidade e aquilo que ele possui em comum com os animais, então aí brilha diante dos homens a luz que Deus pôs em cada um.
Cícero, o orador romano, insiste sobre a beleza que pode e deve existir nas ações humanas: “Nós dizemos belo aquilo que corresponde à excelência do homem na medida em que se distingue dos outros animais” (Cícero, De Officiis, I, c. 27), ou seja, uma conduta em consonância com a inteligência. É por isso que os pecados contra a castidade, mais que os outros pecados, são ditos serem feios: porque quando o homem os comete ele se afasta maximamente do que é um comportamento conduzido pela inteligência e se inclina mais ao que é bruto. “O que é honesto possui uma beleza espiritual e é desejável”, diz Cícero (De Officiis, c. 5).
Quando alguém faz uma ação virtuosa, a ordem interna que existe na alma dele é manifestada exteriormente e é tão mais bem manifestada quanto mais a obra é bem feita e quanto maior é a retidão interna da alma. E na simplicidade de uma só ação ou de uma frase proferida podemos conhecer a ordem (ou a desordem) daquela alma. A boca fala da abundância do coração: “Assim como o cuidado que se tem da árvore se dá a conhecer no fruto, assim a palavra manifesta o pensamento do homem” (Eclesiástico 27, 7).
Em Nosso Senhor, e depois nos santos, a ordem que havia no interior resplandeceu exteriormente em ações bem proporcionadas, tornou-se claramente inteligível diante dos outros homens. Por isso suas obras foram belas, e os judeus dirão de Cristo: “Tudo tem feito bem; faz ouvir os surdos e falar os mudos” (S. Marcos 7, 37).
- Quando um rapaz resolve usar um brinco, pintar o cabelo ou deixá-lo crescer, ou faz qualquer coisa semelhante para chamar a atenção dos outros, então ele busca brilhar por meio de uma luz estranha à luz que Deus pôs nele e se apaga, fazendo-se menos o que ele realmente é. Ora, “não se acende uma lâmpada e se põe debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que dê luz a todos os que estão na casa” (São Mateus 5, 15).
- Uma moça que se veste não para ressaltar a sua humanidade, mas sim aquilo que tem em comum com os animais, apaga a luz que Deus pôs nela e que deveria brilhar diante dos homens: “O que é o sol para o mundo, quando nasce nas alturas de Deus, assim é a bondade duma mulher virtuosa para o ornamento da sua casa” (Eclesiástico 26, 21).
“Nossa época exaltou a juventude e seus valores com tal frenesi que fez deste culto, se não uma religião, uma superstição; entretanto, nunca se envelheceu tanto e tão rápido como agora” (Octávio Paz, op. cit., pág. 16).
c) Na proporção da matéria
Para ser belo, um objeto deve possuir partes harmoniosamente unidas. Eis porque a beleza consiste na proporção das partes de um ser.
A natureza nos oferece inúmeros exemplos de uma harmoniosa organização dos seres.
O filósofo e matemático René Descartes (1596-1650) descobriu uma espécie de curva chamada espiral logarítmica. Ela foi estudada pelo geômetra Jacques Bernoulli (1654-1705) e por isso é chamada também de espiral bernoulliana.
“Asseguram os geômetras que a bernoulliana (…) apresenta uma propriedade notável: Cresce, conservando-se semelhante a si própria, e exprime, desse modo, o crescimento harmonioso. Jacques Bernoulli tinha verdadeiro fanatismo pela espiral logarítmica, e considerava-a como uma das sete maravilhas da Matemática” (Malba Tahan, op. cit., págs. 60-61; itálicos no original).
Terminou pedindo que um pequeno arco desta espiral fosse gravado em seu túmulo, com a seguinte inscrição: Eadem numero mutata resurgo – Mudada no número, ressurjo a mesma.
Esta espiral está presente em uma infinidade de conchas e flores.
Encontramos também na natureza uma outra espiral, chamada espiral de Arquimedes. Esta espiral aparece na disposição geométrica das manchas coloridas que o pavão ostenta em sua cauda.
A sucessão de Fibonacci inicia-se com os números 0 e 1, que são básicos e constituem os seus primeiros termos. Os termos seguintes da sequência têm a seguinte regra de formação: cada termo é a soma dos dois que o precedem.
0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55 …
Ela se mostra de modo bastante notável na Botânica.
“Notaram os observadores que o tronco de uma árvore normal, a partir do tronco inicial, desdobra-se em galhos de acordo com a chamada lei fibonacciana. Do solo sai um tronco; do tronco surgem dois; desses dois surgem três; esses três formam cinco; dos cinco partem oito; e assim por diante. E a árvore, ao crescer, ao multiplicar seus ramos, não se afasta dessa lei” (Malba Tahan, op. cit., pág. 246).
Mais ainda. O número de ouro, equivalendo a 1,618 e simbolizado pela letra grega Φ, se encontra também na Botânica.
De que modo as plantas devem dispor de seus ramos a fim de que as folhas recebam o máximo de exposição à luz solar?
“Os ramos são ordenados de modo que nunca se superponham, isto é, um ramo não pode impedir que suas folhas façam sombra nas folhas que estão abaixo. Os ramos brotam do tronco seguindo um certo ângulo chamado ângulo ideal que é calculado com o auxílio do número Φ. Esse ângulo ideal é 360º dividido pelo quadrado de Φ. O quociente será: 137º 30’28’’ (valor aproximado). Esse ângulo é designado pela letra grega alfa: α” (Malba Tahan, op. cit., pág. 247).
Um esquema mostra, por ordem numérica, o surgimento das folhas em um ramo e o ângulo entre as folhas: entre as folhas 1 e 2 temos α aproximadamente igual a 137,5º = 85º + 52,5º, e este ângulo permanece constante entre as folhas 2 e 3, 3 e 4, 4 e 5, etc… A próxima folha a nascer sempre conserva esta angulação em relação à folha anterior.
A beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria.
Assim, existe uma relação entre a proporção e a clareza. Elas constituem o essencial da beleza. Por isso, elas devem constituir uma certa unidade. A proporção das partes resulta da combinação e da ordenação que há entre elas, e que são o efeito da forma. Para a aparência exterior dos corpos, isso é evidente porque refletem a ordem que têm por meio da luz ambiente. Quanto às formas interiores, ou essências das coisas, pode-se dizer que este esplendor é precisamente a fascinação de sua inteligibilidade.
Deste modo se unem clareza e harmonia, resplendor e proporção, permitindo que conheçamos objetivamente a beleza de uma coisa.
Assinar:
Postagens (Atom)